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Crítica – Festim Diabólico

 

A anatomia do crime perfeito

Por Rafael Lopes

Qual seria a essência do crime perfeito? Seria o fato de conseguir sair incólume mediante tanta suspeita? Seria conseguir fazer com que outro fique com a culpa? Seria sentir simplesmente o prazer em matar? Em um dos melhores diálogos de Festim Diabólico temos a resposta: superioridade. Ela pode não ser um fator tão determinante, mas é um estopim para uma sequencia de idas e vindas que culminam num desesperado modo de simplesmente chamar a atenção, para que atestem, que abram os olhos, que definitivamente estejam a par do que tornaria alguém um ser superior.

Na literatura, mais precisamente na filosofia, Nietzsche muito bem definiu esse efeito, lá em seu livro Assim Falou Zaratustra. O filósofo disse que o “homem superior” é naturalmente um destaque. Ser um indivíduo superior significaria se elevar acima da mediocridade e que sua existência se devesse mais ao esforço e a educação, do que pela seleção natural. Trazendo isso dentro da obra de Hitchcock, temos uma síntese de tudo o que foi dito.

Primeiramente um assassinato. Phillip e Brandon enforcam David com uma corda, guardam o corpo dentro de um baú velho e dali a poucas horas, darão início a uma festa. Brandon (John Dall) é frio e extremamente calculista, consegue com suas palavras venenosas conquistar facilmente a confiança de acordo com o que pode proferir, seja para bem ou para mal. Nisso consegue antipatias e simpatias de todos os outros personagens.

Convida para a festa a atual namorada do defunto, a família do defunto e seu antigo professor, a quem guarda profunda admiração. E pra finalizar suas vontades macabras, decide por o banquete sobre o tumulo do falecido. Por outro lado, Phillip (Farley Granger) é inteligente demais, talentoso demais, porém, descontrolado demais. A qualquer sinal de alerta pode explodir, e o fardo da culpa pode não fazê-lo ser como o parceiro – que também tem lá seus tiques observe como gagueja tentando ser sério. Phillip é no filme a personagem mais dúbia da obra, pois se apresenta como assassino, se desenvolve como um atordoado facilmente manipulável, mas que no fim é farinha do mesmo saco de seu companheiro. Só que entre esses dois, existe quem os ensinou a ser assim.

Interpretado com um vigor e intensidade inigualável por James Stewart, o professor que exerce uma função de detetive Rupert Cadell pode ser visto como herói e vilão ao mesmo tempo. A primeira faceta por ir juntando as peças e se tornando o parceiro do publico que quer ver os dois assassinos se darem mal; e no segundo caso justamente por ter trazido aos jovens, Nietzsche e o “homem superior”. Os rapazes, claro, distorceram tudo – bem como os leitores da época, que deixaram o filósofo por acreditarem que o que ele escreveu sobre o ser superior tinha ligação com Adolf Hitler – e fizeram de sua “superioridade” uma arma.

Cometer o crime para chamar a atenção de seu professor a quem tinham tanta admiração, é também a deixa para trazer ao cinema um tema bastante polemico e ousado à época: a homossexualidade. O que não falta, além dos diálogos referenciais a Nietzsche e do duplo sentido habitual em filmes de mistério, são momentos onde sutilmente o diretor nos oferece uma visão mais intimista do trio protagonista: haveria ali uma relação além do professor aluno? Claro que tudo fica implícito, e a resposta obviamente não é tão escancarada, mas trazer essas peculiaridades dentro do filme, já o tornam diferente.

E isso não vem de maneira gratuita, mas como lenha para fazer o filme acontecer mais ainda. Incrível ver o texto basicamente teatral – e filmado em cerca de 8 cortes, justamente para se ter essa impressão – ter dimensões que transcendem a obra de suspense. O filme vem carregado de muita informação, seja ela útil para a obra seja ela feita para situar o argumento original. Por exemplo, no diálogo onde Brandon discursa sobre a possibilidade de seres superiores terem a liberdade de matarem a quem julgam ser inferior e logo mais tarde ele ser questionado se quer ser Deus é puro Nietzsche, levando em consideração que o homem superior não possui a crença em Deus. Ou os diálogos carregados de cumplicidade além da de um crime entre Phillip e Brandon, como quando um comenta sobre o charme do outro.

Enfim, não faltam motivos para os 80 minutos de Festim Diabólico serem obrigatoriamente digeridos com calma e atenção. É um filme espetacular, seja como cinema, seja como peça para discutir tanta coisa proposta, é só mais um atestado da genialidade de Alfred Hitchcock.

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