Um Corpo Que Cai (Alfred Hitchcock, 1958)

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Um pouco do legado do mestre

Por Rafael Lopes

Dá pra dizer que Um Corpo que Cai é a essência de Alfred Hitchcock.

Já de cara, ali na abertura maravilhosa de Saul Bass, um rosto, uma boca, um olhar e a queda dentro daquele olhar. Um resumo de todo o filme, onde uma mulher, num olhar fulminante conquista o protagonista e ao espectador, ela é Madeleine Elster, ela é Kim Novack, escalada para a personagem após a desistência da preferida de Hitchcock, Vera Miles que acabou engravidando na época das filmagens. O aposentado detetive John Ferguson (James Stewart impecável como sempre) é chamado por um velho amigo para espionar sua esposa, que anda com tendências suicidas por achar estar possuída pelo espirito de uma antepassada.

Num primeiro instante ele não aceita, não é o que queria, mas o convite para vê-la num bar muda tudo, tanto que ele não diz aceitar a missão, só o olhar dela deixa tudo claro, houve ali mais do que uma vontade profissional, houve um encanto. E não só a ele. As mulheres certamente sentirão uma inveja, Novack está absolutamente hipnotizante – com direito a roupas escolhidas pelo próprio diretor; e os homens, claro, como não admirar tanta beleza? Na outra cena, John já aparece a seguindo, o rei das elipses significativas mostra que os interesses de John são na verdade outros, nada fica explícito, é tudo sugerido, como quase tudo nesse filme. Quanto mais John vai conhecendo sobre o mundo de Madeleine, mais lhe aumenta a obsessão por aquela mulher, que vive em meio a tantos mistérios.

O bar, o museu, o hotel, tudo possui um significado, uma razão, e quanto mais John investiga, mais duvidas aparecem. Em suma, boa parte do filme vai se construindo nisso. Os fatos são apresentados de uma maneira que fique obvio não ser aquilo, fica o convite a duvidar. É dessa forma que Hitchcock brinca com o espectador, nos convidando a duvidar e logo depois joga uma reviravolta que muda tudo. É o que acontece.

Em meio a juras de amor, no melhor dos cenários, o beijo que sela o amor entre eles. É perigoso, sabemos, e até mesmo o fato de o marido dela não notar nada não é simplesmente um furo no roteiro – é até a maior das reviravoltas da trama – e Hitchcock centra fogo no homem e na mulher. Se utilizando da psicanálise para explica-los em mais elipses cheias de significados, ele consegue dar um jeito de a acrofobia que ele tem ser fator determinante no momento mais crucial do filme: a morte da mulher. A cena é incrível: um beijo amargo, uma escada – repare na câmera colocada em primeira pessoa, a visão da vertigem foi inventada pelo mestre – e finalmente um corpo caindo.

Ali poderia ser o fim, há um julgamento e logo depois as consequências dessa ligação que não deveria ter acontecido. John está depressivo e em tudo enxerga a mulher que o conquistou. Esse detalhismo que Hitchcock imprime em John é preparado ao longo do filme em pequenas situação onde ele mostra que os detalhes, como nos bons filmes de mistério, serão decisivos. Um colar, um penteado e até mesmo uma roupa o diretor utiliza como artifícios a seu favor, o que consegue quebrar de maneira formidável tanto o ritmo quanto o clímax do filme. É com isso que John encontra uma mulher aparentemente idêntica a sua amada, e é no caso deles dois que o filme ganha seu tempero mais saboroso. Entre reviravoltas, cenas impressionantes e devastadoras – o sonho é de um desconforto descomunal e extremamente importante ao filme – e um dos desfechos mais cruéis (tanto para John quanto para quem assiste) que ele filmou.

O filme brinca e subverte amor, mistério e suspense. É muito mais interessante um filme ter a realidade como pano de fundo, uma vez que isso deixa tudo mais palpável e humanamente compreensível. Quando Hitchcock aposta nisso, seu filme ganha uma verdade maior e fica ainda mais perigoso – perigoso no sentido de que as reviravoltas são as mais verdadeiras mesmo tendo um apelo cinematográfico obvio. A forma como desenvolve com calma e maestria suas personagens dão todo o tom. John e seu medo de altura e o estado zumbi de Madeleine são com calma desenvolvidos e contextualizados, sem que fique espaço para furos.

A união dos dois é outro grande acerto, uma vez que no belo romance que nasce ali, Hitchcock não hesita em deixar a cada cena um tom de perigo rondando. Note como a luz é utilizada, note como a escuridão os envolve de maneira ameaçadora no passeio na floresta. Partindo disso, Hitchcock consegue de maneira poderosa dissertar sobre a capacidade as vezes assustadora das mulheres de dominar um homem; e do lado do homem, a capacidade as vezes assustadora de um homem ser dominado por uma mulher. Ela desenvolvida com vigor e ele mostrado em meio a seu medo.

Hitchcock como grande diretor que é utiliza os aparatos técnicos para literalmente brincar com nossos sentidos e sentimentos. A forma como constrói e desconstrói o sentimento entre eles, a forma como constrói um personagem cheio de fraquezas, mesmo impondo respeito e vigor e também como constrói toda a personalidade de Madeleine são um mosaico de sentimentos ajudados pelos recursos fílmicos como a fotografia, os figurinos e a direção de arte; depois vem ele brincando com nossos sentidos, coisa que dominava como ninguém, com truques de câmera (a mais famosa delas é a já citada sensação de vertigem) e sombras, um trabalho nada menos que formidável.

É sem dúvida seu trabalho mais maduro, por não contar com assassinatos mirabolantes e tampouco personagens enfrentando desafios além das capacidades humanas. Não que isso diminua seus outros trabalhos, que contem com esses detalhes que ficaram de fora nesse filme, mas é sem duvidas o diferencial que faz com que Um Corpo que Cai seja tão especial dentro da filmografia do mestre. É um filme intenso, brilhante, instigante e surpreendente.

É Alfred Hitchcock.

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