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Crítica – Intriga Internacional

 

A cartilha dos filmes de ação

Por Rafael Lopes

Intriga Internacional é o que se pode chamar de cinema de primeira. São vários os fatores que justificam esse título, a começar pelo enredo. Estamos em 1959 e a Guerra Fria está em evidencia, porque não explorar isso? O filme muito pouco sugere sobre esse capítulo da história, mas tudo pode se resumir em um pequeno diálogo, o pano de fundo é realmente esse. Agora, o que o publicitário Roger Thornhill (Cary Grant) tem a ver com tudo isso? Sua vida sofre uma virada quando é confundido com um tal de George Kaplan, e acaba virando refém de um misterioso homem que faz com que a cada metro que Roger anda, fique em perigo.

São homens querendo mata-lo, um avião atirando contra ele e até – claro – uma mulher, uma loira fatal interpretada por Eva Marie Saint. Quanto mais Roger investiga, mais sua vida se complica. Acusado de ter assassinado um homem das Nações Unidas, ele é perseguido pelos Estados Unidos por uma organização criminosa que acredita que ele seja um espião tentando impedir o contrabando de microfilmes. A trama se enreda em situações que quanto mais se acumulam, vão envolvendo ainda mais o pescoço de Thornhill, e claro, a atenção de quem assiste.

A história pode até parecer batida, e de fato é, uma vez que histórias assim foram contadas a exaustão durante e até depois da Guerra Fria. Mas estamos lidando com uma das exceções que aconteceram. Intriga Internacional é um pouco mais do que uma história batida, é uma identidade ao gênero do suspense que envolve a espionagem. O filme possui uma estrutura simples – por isso é tão perfeito – onde consegue iniciar, se desenvolver e se concluir sem deixar lacunas e nem nada por se explicar. O que se tem hoje em dia em se tratando de tramas de espionagem é um foco descontrolado em explosões e tiroteios muitas vezes desnecessários, deixando o enredo – esse sim o coração desse tipo de filme – em segundo plano. Intriga Internacional não sofre desse mal.

Em nenhum momento o diretor abre mão de contar sua história da melhor forma para abusar de cenas de ação. Melhor ainda quando o faz ambos casos com uma precisão perfeita. Não faltam cenas de ação, com tiros e atentados, sem se desprender do que o filme realmente está focando. O roteiro muito bem escrito e trabalhado consegue ser redondo, sem tempo para criar dentro do filme qualquer desvio que não dê tempo para ser desenvolvido ou que seja pura e simplesmente perda de tempo. Tudo é aproveitado, tudo tem uma razão, por isso, é difícil desgrudar os olhos. Cada reviravolta esconde uma surpresa que só faz o filme crescer, Ernest Lehman criou um texto soberbo partindo de uma premissa simples.

Depois vem o elenco. O trio principal está ótimo, Cary Grant, Eva Marie Saint e James Mason, o vilão da história, numa interpretação magistral. Podem não ser apresentações tão marcantes, mas são dignas, pois impõem cada personagem lhes dando sua importância e muito bem lhes aprofundando, indo talvez mais além do que o roteiro. As vezes em pequenos detalhes, consegue-se uma interpretação em cena que muito bem combina com a situação em que se encontram os personagens, como o choro calado de Marie Saint, ou a perplexidade de Mason quando leva um tiro falso ou Grant bêbado tentando explicar a tentativa de sequestro que sofreu. São coisas aparentemente sem importância, mas que quando observadas com mais atenção, são tão perfeitamente encaixadas, só elucidando o talento incontestável desses atores.

Os atores ajudam a dar o tom, sendo eles valorizados como lindos figurinos e ainda por cima com a trilha sonora refinada, que faz surgir uma aura em cada um. Dirigidos com competência, mocinho, vilão e femme fatale são desenvolvidos com calma, cuidado e sempre fazendo o publico atentar principalmente em suas nuances, pois numa trama de espionagem, o trabalho com o corpo é essencial, que também é comum a vida dos atores. Ver uma entrega tão bem trabalhada por um diretor considerado gênio, é sempre bom de se ver.

E como não poderia deixar de ser, o que seria esses fatores citados sem Alfred Hitchcock? O diretor vem cheio de disposição para brincar com nossa cabeça montando um quebra cabeça perfeito, a partir do roteiro de Lehman. Conhecido, obviamente, como mestre do suspense, o diretor consegue tensão onde ele quer, seja na famosa e magistral perseguição na estrada, onde um avião ameaça a vida de Grant com tiros e rasantes ou num simples apanhar de caixa de fósforos no chão. Hitchcock em seu talento monstruoso para esse tipo de coisa nos insere de maneira espetacular dentro do filme.

Seu cinema é tão encantador e autentico justamente por ele por essa personalidade dentro de seus filmes. O uso da câmera e até mesmo como as posiciona fazem tudo parecer não somente uma cena, mas como se o espectador estivesse ali, acompanhando cada ação do filme estando lado a lado com os atores. Essa artimanha é um charme, uma vez que quando a câmera é posta em primeira pessoa atenua tudo o que ele quer: ação, suspense, surpresas. É sem duvida um trabalho de gênio. Apesar de ser – infelizmente – um filme datado, Intriga Internacional continua vivo, por ser um trabalho cuidadoso de um diretor preocupado em tirar o melhor de suas histórias.

Por isso, cenas como a da já citada perseguição de avião ou toda a sequencia soberba no monte Rushmore continuam tão impressionantes, mesmo cinquenta anos depois de seu lançamento. É a soma desses três fatores, o enredo, os atores e Alfred Hitchcock, que constroem esse filme, onde tudo funciona da melhor maneira possível para oferecer 2 horas de cinema puro.

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