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Crítica – Suspiria

Suspiria (Dario Argento, 1977)

 

Por Rafael Lopes

Um exercício de Horror.

Certamente um dos melhores filmes de horror do cinema, Suspiria é um convite para experimentar o medo com todos os artifícios possíveis, conduzido com uma maestria ímpar pelo ícone do cinema de horror Dario Argento. O italiano usa e abusa de luzes, sombras, gritos, sangue e música, para criar uma história envolvente e assustadora no sentido mais bruto da palavra.

Elementos considerados batidos é o grande tempero da produção. Bruxas, assassinatos misteriosos, todas essas coisas que estamos acostumados a ver. Ma há um diferencial peculiar entre Argento e os caras que produzem o terror hoje: a audácia. Como fazer um filme de horror sem brincar com seus maiores medos? Assim como o gênio Hitchcock, Argento se embasa em elementos místicos que fascinam e em mãos certas, viram obras primas. Não vejo qualquer diretor que se considere diretor de filmes de terror usando bruxaria da forma que Argento usou.

O filme já começa da melhor maneira: batidas fortes anunciando que algo macabro está prestes a começar, logo depois, ainda durante os créditos, ele faz um breve resumo do que é a história: a garota americana Suzy Bannion (Jessica Harper) vai para uma escola de dança muito conceituada para estudar balé. A forma como começa o filme é como se alguém estivesse contando uma história e Argento com suas artimanhas seria o responsável por tornar essa história real. Tudo o que compõe uma cena de horror está ali, a escuridão, a chuva forte, os trovões e um rosto assustado.

Ao chegar à escola, Suzy vê uma mulher desesperada, dizendo palavras aleatórias e de uma forma assustada. Sem entender e sem ser de cara aceita na escola, aparece no outro dia e de cara descobre que a mulher que havia avistado no dia anterior fora brutamente assassinada na noite. A partir do momento que começa a ser mais ativa na escola, percebe que fatos estranhos e macabros começam a acontecer com bastante freqüência.

Quando se une a Sara (Stefania Casini), começa a perceber que há algo errado na escola, e que um segredo mortal está por trás dos misteriosos professores mal encarados, mordomos estranhos e sobre o passado da própria escola. Começa aí uma teia de situações macabras e sem explicação, que culminam num clímax fantástico, comprovando com todas as letras o porquê desse filme ser tão amado e assustador.

A forma com que Argento monta seu filme é bastante característica do modelo italiano de fazer horror. Há uma plasticidade nas cenas onde ele utiliza os ícones do horror (a magia negra e o mistério, essas coisas) com uma preocupação bastante visual e estética, se desligando um pouco da história para montar imagens realmente assustadoras. Ele utiliza cores fortes e seus momentos mais assustadores acabam mais parecendo uma pintura.

Engraçado vê-lo atingindo isso de uma forma inteligente, mas com uma composição bastante onírica. É tudo como um pesadelo realmente: o pior lugar do mundo com as piores pessoas do mundo. Esse tom fantástico esta presente em boa parte do filme, que vai desde os assuntos abordados até as mortes, que de tão coloridas e artísticas, definitivamente ganham ares de pintura, mas conduzidas como se fosse um pesadelo.

Há vozes nos corredores escuros, há o visual barroco que compõe a estética do filme (e convenhamos , o visual barroco tem ares assustadores, apesar de belos), há sombras, há sons estranhos (até mesmo um ronco é assustador nesse filme) e até a extravagância das cores usadas causam um arrepio. Os sustos são garantidos, mas não gratuitamente, como no cinema americano.

Os sustos aqui são elemento primordial na composição de uma cena de horror. Se você se assustar, tenha certeza, não será gratuitamente, e isso que fascina mais ainda tanto no filme como na forma de dirigir do Argento. Usar sustos gratuitamente é covardia, apenas uma arma para manter quem assiste ligado no filme. Aqui não, a coisa é bruta de verdade, você vai se assustar e se borrar de medo, porque Argento brinca com o suspense como ninguém. Logo na primeira cena de morte, meus olhos não desgrudaram, levei uns bons sustos e quando a cena acabou eu estava ali, perplexo. E essa era apenas a primeira cena.

Ali é como se ele estivesse avisando que o filme começou pra valer, e ele ia repetir tudo aquilo com mais freqüência e culhão, justamente pra te deixar ainda mais amedrontado. E ele conseguiu, diga-se. Argento brinca com nossos olhos ao montar gags interessantes dentro do filme. O simples ato de uma luz ascender já causa um desconforto. E aí que entra a extravagância de suas cores. O vermelho, seja ele do sangue ou da luz, é muito utilizado e em momentos chave da trama, como quando Suzy e Sara começam a especular sobre os mistérios que cercam o lugar.

Em dado momento do filme, as duas estão conversando num grande pátio iluminado apenas pelo vermelho, e logo atrás delas o ronco desgraçado que citei ali em cima. A cena é incrível, justamente por usar detalhes para compor o suspense. Coisa de gênio!

E o filme só vai ficando cada vez mais espetacular. A brincadeira que ele faz com nossos olhos , ouvidos, enfim, os sentidos do corpo que fazem a sensação de ver um filme algo diferente é o que faz o filme só crescer no conceito de quem assiste.

E tenho certeza de que, quem não é fã do gênero, se assistir a Suspiria no volume alto e em uma qualidade boa, vai se tornar fã pra sempre do gênero! Terror em sua essência filmado com uma qualidade artística que além de embelezar por demais as cenas, assusta pra valer. Coisa linda! Aguçando nossos sentidos e elevando isso ao limite da irrealidade, Dario Argento cria uma obra prima maldita, assustadora e inspiradora, digno do mestre, do horror e do cinema.

Não perca por nada!

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