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Crítica – Freaks

 

A assustadora alegoria de Tod Browning.

Por Rafael Lopes

Da rivalidade do cinema nos anos 30 para o mundo. Nascido da inveja do sucesso dos clássicos de horror da Universal, Freaks foi financiado pela MGM na vontade de se ter algo mais assustador do que o filme da poderosa rival (que até hoje possui um invejável histórico no que diz respeito a filmes de terror com seus clássicos monstros). Conseguiram. O que se tem em Freaks é até bem mais do que um mero conto de horror. As fundamentações de seu enredo são cabíveis, irônicas e extremamente chocantes, bem mais que suas imagens. É engraçado notar aqueles personagens peculiares de circos, pessoas deformadas, com retardo mental, ganharem uma história onde analisamos valores pela ótica de pessoas que sempre foram minimizadas pelas suas condições.

Em poucas palavras, ver duas pessoas, símbolos da beleza, da força, da perfeição, serem massacradas pelas bizarras criaturas, é a maior das contradições, ainda mais quando analisados todos os pormenores da fita. Cleópatra e Hercules (seus nomes dizem tudo) são um casal mal caráter, dispostos a dar um golpe em um dos anões da trupe de estranhos que está para receber uma grande fortuna. O anão, Hans, cego de amores por Cleópatra cede a todos os seus encantos, e fecha os olhos ao que pode lhe acontecer ao fim de tudo. Nem mesmo os conselhos de outra anã apaixonada por ele consegue fazê-lo mudar de ideia em relação a Cleópatra.

É interessante entender um pouco sobre os tipos que surgem ao longo do filme. As pessoas são mostradas como realmente são, preconceituosas, egocêntricas, desgraçadas, escória. Cleópatra faz jus ao nome que lhe inspirou. Sua personagem é manipuladora, é narcisista, e se mostra disposta a tudo para ter o poder, até mesmo a matar um marido para viver com outro. Hercules possui a mesma característica. Simbolizando força, perfeição, malícia, é outro que surge ali para assumir sua pose de homem respeitoso acima de tudo ou embaixo de porrada. Esses dois, que deveriam fazer toda a pose de grandes heróis do classicismo do cinema são desconstruídos perfeitamente sob a óptica de quem sempre fora associado a vilania: os monstros do título.

O filme não perde tempo tentando causar qualquer simpatia do publico pelos deficientes, mas sim, faz com que a trama se desenrole de maneira que o publico sabe no final das contas para quem torcer. Tanto que a loirinha indefesa acaba se tornando realmente a vilã ao lado do arquétipo do herói. A organização dos monstros para a vingança final é trabalhada com uma maestria ímpar pelo diretor Tod Browning, que desenrola toda uma estrutura de sociedade tão próxima da realidade dos ditos normais do que fantasiosa em relação aos mesmos normais. Essa organização quebra todos os paradigmas e preconceitos com os quais essas pessoas sempre foram vistas, colocando-os como os verdadeiros normais.

Essa quebra de barreiras é a grande qualidade do filme, que não se restringe a mostra-los como criaturas abomináveis, mas como capazes, inteligentes e providos de sentimentos. Algumas passagens, onde explanam essa ideia, são carregadas de uma melancolia sincera e necessária. E por isso, talvez, tenha causado tanto rebuliço na conservadora, preconceituosa e limitada sociedade da época. O filme foi mal visto, mal encarado, demonstrando que se precisava de uma evolução intelectual do próprio público para que se visse quão desnecessariamente preconceituosas e idiotas as pessoas são.

Por isso, tem-se um dos filmes mais adorados do cinema e que até hoje, tanto tempo depois, continua tão coeso com essas causas e tão brilhante no discurso que defende. O filme não chega a discursar com afinco e sensacionalismo a aceitação. Em nenhum momento Browning explora a figura dos deficientes para causar alguma pena. A narrativa flui tão perfeitamente – e em certos momentos intensamente – que o diretor consegue não cair em nenhum lugar comum ou ser sensacionalista para defender um ponto de vista. O que Browning faz é desenhar uma sociedade estereotipada – como a nossa – num grande circo – como a nossa – para discutir justamente essa existência hipócrita de pessoas que vivem de aparência e não de sua própria existência – como a nossa.

Freaks é um filme tão aparentemente simplista e bobo, que a medida que vai acontecendo, só cresce, só evolui. É uma obra prima atemporal, que se visto com os olhos bem abertos, é mais do que um espetáculo. E isso sem contar na influencia que exerce até hoje no cinema de horror. Um filme obrigatório.

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