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Crítica – Across The Universe

 

Beatles consegue deixar tudo lindo…

Por Rafael Lopes

Musical é o tipo de filme que mais me agrada. Mesmo sendo algo de tamanha extravagância as vezes, como no caso de Mamma Mia!, procuro sempre ver um “lado bom” neles. Suas coreografias, atores que estamos acostumados a ver fazendo outras coisas soltando a voz, o roteiro muitas vezes deixado de escanteio para dar mais lugar às músicas, essas coisas.

O gênero, assim como o faroeste, deixou de ser “prioridade” aos grandes estúdios, que a partir da década de 70 preferiam ação a essas coisas que marcaram cerca de 20 anos (ou mais) de cinema. Hair, de Millos Forman foi o ultimo grande e expressivo exemplo, depois só veio poucas e fracas produções. Em 2001, o australiano Baz Lührman trouxe o estonteante e pomposo Moulin Rouge, que com uma sacada interessante de inserir músicas mais populares à seu romance, colocou o gênero musical mais uma vez na boca do povo. O filme não teve nenhuma expressiva bilheteria, pois foi em DVD que ele realmente atingiu o público, e como rendeu, não tardou a aparecer mais musicais.

Partindo desses princípios (musicais a moda antiga e novo gás por parte de Moulin Rouge), Julie Taymor desenvolveu Across The Universe, um filme colorido, empolgante, ótimo. Utilizando coreografias esfuziantes, números musicais psicodélicos e as letras dos Beatles, o filme é comercial e alternativo ao mesmo tempo, pois consegue agradar a todos os tipos de publico, seja quem conheça Beatles ou não, seja quem conheça os loucos anos 60 ou não, seja quem goste ou não de musicais.

O filme conta a história de Jude (Jim Strugues), um sonhador de Liverpool, que vai à America à procura de seu pai. Lá chegando, conhece o bom vivant Max (Joe Anderson) e sua irmã Lucy (Evan Rachel Wood), por quem logo se apaixona. A história deles cruza os momentos críticos que a América vivia nos anos 60, como a liberdade sexual, liberdade intelectual, guerra do Vietnan, protestos, psicodelia, todas essas coisas. Só que detalhe, o mergulho acontece ao som de Beatles, passando por todas as suas fazes, desde “I’m Wanna Hold your hand” até as mais maduras e politizadas como “Because”, o que claro, dá um brilho mais intenso ao filme.

Funcionando tanto informativo como divertimento, o filme em seus 131 minutos passeia por tudo isso, contando uma história de amor, definindo o que foi aquela época, revirando do baú tudo de rico e importante na cultura pop daqueles dias. O problema é Julie Taymor, aparentemente “nervosa”, se embaralha em alguns momentos e acerta em muitos outros.

O filme começa bem, com Jim cantando numa praia e já resumindo em imagens, toda a conjuntura que o filme vai abordar (alguém aí se lembra de Moulin Rouge, com uma abertura semelhante, onde o personagem do Ewan Macgregor faz praticamente o mesmo). Depois situa época e acontecimentos culturais (high school nos Estados Unidos e rock’n roll nas boates de Liverpool), depois tudo o que de certa forma atormentava a juventude naquela época, como ativismo, guerra e por que não o amor? Agora, a tudo isso, junte as canções dos Beatles e pronto, tem-se Across The Universe.

Julie em alguns momentos exagera, como em números musicais que abusam de coreografias que chegam a beirar o ridículo. Só que a esperta, devolve com momentos impagáveis de pura beleza em tela. Ela abusa do conteúdo das músicas, chegando a extrapolar em certos momentos, mas acerta em eternizar belos momentos onde emprega com bastante calmaria o que seria “o jeito certo de fazer a coisa”.

As referencias são o que carregam o filme nas costas, aliás, penso que se não fosse isso, o filme seria incompleto e incoerente. Como por exemplo, personagens que lembram muito a história, e até as inesquecíveis performances de Janis Joplin, minha eterna diva (no filme ela vira Sadie, interpretada por Dana Fuchs) e Jimi Hendrix (ele vira Jojo, interpretado por Martin Luther).

Liverpool, onde nasceram os Beatles, o nome dos personagens maliciosamente adaptado às letras das musicas, o show no telhado do prédio, o emprego de figuras desse tempo marcando presença indireta no filme (como quando aparece a menina nua vietnamita, lembrando aquela da famosa foto, fugindo nua do ataque americano, ali representando as vitimas) e meio que pondo em imagens, o que John, Paul, George e Ringo colocaram em músicas.

O que não se pode deixar de notar é a grande semelhança com Hair. Coreografias, cenas, tudo feito para lembrar o clássico dos anos 70. O movimento hippie, psicodelia, a cena do alistamento chegou a ser o cúmulo, mas perdoei porque gostei dos soldados com o rosto do Tio Sam. Mesmo que tenha faltado um pouco de criatividade quanto a isso, não é nada que atrapalhe demais o andamento das coisas. Tecnicamente deslumbrante, tudo o que há nos bastidores é responsável pelo belo visual do filme. A fotografia é inspirada, a direção de arte é linda, situa de todas as formas a época, os costumes, tudo isso. O figurino lindo se encaixa como luva, realmente fez jus a sua indicação ao OSCAR.

O elenco não é muito lá inspirado, mas arrasam nos números musicais e isso já é digno. Soltam a voz e não fazem feio. Mas quanto às musicas, o erro foi ter incrustado quase que a força, uma interpretação mais diferente das músicas. Por exemplo, “I’m wanna hold you hand”, balada das boas, ficou extremamente monótona.

Outras das fazes mais maduras dos Beatles quiseram ir mais além de seu significado, algo que soa como, desculpa para por cenas belas no filme. Se isso tivesse sido evitado, certamente o filme seria muito melhor. O roteiro peca em ter alguns furos, não desenvolvendo bem alguns subtramas ao final.

Cores, vibração, a criatividade de toda a equipe, faz com que a obra seja apreciada, em muitos momentos deixando essas coisinhas a toa de lado e mergulhando com gosto num belo musical, com uma trilha beirando a perfeição e números musicais inesquecíveis. Exagero de minha parte dizer isso? Não.

All you need is Love!

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  1. Concordo com o seu comentário. O filme tem coisas realmente muito boas, mas não soube aproveitar todo o potencial e criatividade que eles transparecem. Como fã também de Beatles, acho que eles poderiam ter ido além do romance que permeia toda história; e aproveitado mais a história da banda e o contexto da época. Em certos pontos eles até tentaram, e que ao meu ver são os melhores momentos da trama. Mas acho que não são os referenciais os grandes momentos da obra, e sim a construção bem autentica de algumas cenas – como na música “Strawberry Fields Forever” e até “I Want You”. Além disso, a trilha sonora é muito bem feita. Acho fantásticas as versões de “Let It Be”, Come Together” e “Helter Skelter”.

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