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Crítica – A Serbian Film – Terror Sem Limites

 

Polêmica de nada

Por Rafael Lopes

Na Inglaterra foi preciso cortar 4 minutos para que recebesse a censura 18 anos; na Noruega foi banido dos cinemas por insinuar sexo com crianças; exibido no RioFan – Festival Fantástico do Rio – esse ano e acabou tirado da programação por exigência do patrocinador do evento. Essas e mais proibições tem sido decisivo para que A Serbian Film – Terror sem Limites entre pro rol dos filmes mais comentados e polêmicos dos últimos anos. Acredite ou não, a principio o argumento é nobre: dissertar sobre o declínio do ser humano e da sociedade, explorando seus limites tanto no mundo real ou no mundo da arte, como reflexo dessa situação. Mas as boas intenções param por aí.

De cara, um menino, que logo se descobre ser o filho do protagonista, assiste a um filme interpretado pelo seu pai: um pornô. O menino questiona sobre o desenvolvimento de seu metabolismo, e obviamente põe o pai numa linha de fogo mortal. O diretor Srdjan Spasojevic tenta um principio de honestidade e maturidade para levantar a questão da separação abismal entre as próprias relações dentro de casa, mas decide ir pelo caminho mais fácil: deixar isso de lado e partir para suas reais intenções, que se tratam da construção do filme de horror. O que se poderia esperar de no mínimo interessante vindo desse filme (quem disse que filmes de terror não podem ter conteúdo?) vai de ralo.

O então veterano do cinema adulto se depara com a crise dentro de casa, não apenas como pessoas mas também financeira – outro bom argumento jogado fora, seria legal o filme falar de maneira mais inteligente sobre essa venda a que o ser humano se expõe para ter algo – e na fé de voltar aos dias de glória, o cara se mete num snuff movie (um tipo de filme em que é mostrado um assassinato com o intuito de lucrar com isso) de sua própria vida. Não é a primeira vez que um filme que trata de snuff’s é lançado nos cinemas. Lá nos anos 80 com o Holocausto Canibal, onde o diretor Ruggero Deodato precisou provar que seus atores estavam vivos e que tudo era na verdade de mentirinha; teve também o polemico Guinea Pig, filme japonês que consiste em mostrar uma menina sofrendo os mais variados tipos de violência que na verdade era um teste de maquiagem de estudantes de cinema.

A Serbian Film – Terror sem Limites entra pra essa galeria por justamente ser só mais um filme banal e ultraviolento, que assim como esses dois exemplos citados só existe para causar. Isso demonstra completa falta de competência do diretor que poderia sim, junto da violência desenvolver os bastidores disso tudo, dando ao menos alguma justificativa inteligente para tanta crueldade. Filmes como Laranja Mecânica de Stanley Kubrick ou o drama de Guerra Vá e Veja, de Elen Klimov são filmes extremamente violentos, mas que buscam tanto em fatores externos como na própria humanidade de seus personagens alguma justificativa que torne o uso da violência realmente necessário. Obviamente não se tratam de filmes que pendem para o terror, mas existe algo mais aterrorizante que uma realidade que te põe medo a cada passo dado?

No caso desse filme sérvio, essas informações são dadas como bônus, pois de resto, o que se tem é uma apelação desnecessária e brutal, o que faz A Serbian Movie – Terror sem Limites sobreviver no barulho que vem causando.

É um filme que diferente de Salò ou os 120 Dias de Sodoma, obra prima de Pier Paolo Pasolini, não aproveitou para tirar algum significado das doentias imagens que vinha conduzido. No caso do filme sérvio, as atrocidades vão desde insinuação de sexo com recém nascidos – recém nascidos mesmo, e acredite, é insinuação de sexo pra valer – a olhos perfurados com um pênis, tudo na maior gratuidade, tudo com o intuito de chocar.

As cenas, obviamente, são assustadoras e horrendas, mas que chocam e não possuem sentido algum que faça o filme realmente valer a pena. Ou seja, é uma banalização idiota e desnecessária, que tinha lá seu potencial, mas foi desperdiçado por puro capricho. O roteiro quase nulo, atolado de clichês e momentos previsíveis, parece estar ali para dar os moldes do filme, mas o fato é que possui diálogos que beiram o ridículo, como as ultimas palavras do diretor, que prestes a morrer solta a maior asneira que um filme poderia ter. E o diretor sai jorrando sangue e abusando de imagens aterradoras para não chegar a lugar algum.

Vai ver se ele tivesse assistido a alguns desses citados ou até mesmo aprendido com Takashi Miike, um dos maiores talentos do cinema na atualidade, como construir um mundo doentio e violento, A Serbian Film – Terror sem Limites tivesse alguma qualidade. O que se tem é um festival de atrocidades desnecessárias que no fim de tudo não chega a lugar algum.

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