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Crítica – As Aventuras de Pi

 

As aventuras de Ang Lee

Por Rafael Lopes

A democratização do cinema 3D tem ganhado força ultimamente. De James Cameron a Wim Wenders, tá todo mundo interessado em contar uma história utilizando a tecnologia. O mais legal desses diretores mais renomados usando a tecnologia é a experiência única que vão nos proporcionando. James Cameron nos levou a um passeio em outro planeta; Martin Scorsese nos contou um pedaço da história do cinema; Wim Wenders nos apresentou Pina e agora Ang Lee nos apresenta Pi e a aventura que mudou sua vida.

Ang Lee, um eclético diretor já premiado com o Oscar, é conhecido por visitar vários gêneros e se sair muito bem neles. Do subestimado Hulk à obra prima O Segredo de Brokeback Mountain, o que prevaleceu foi sua identidade, sua capacidade de em meio a situações tão diferentes, focar de maneira impressionante na construção de suas personagens como ninguém. Esse efeito, é claro, é o motor de As Aventuras de Pi, seu mais novo trabalho.

Infelizmente, talvez, o grande publico estranhe o inicio do filme, uma vez que ação mesmo é bem mais pra frente. No começo Lee se propõe a construir Pi, um menino que cresceu no zoológico dos pais e enfrenta um dilema pessoal: em que deus acreditar? Nos milhões da religião Hindu, no pai de Jesus Cristo ou em Alá? Fazendo isso sem desmerecer religião A ou B, o diretor põe Pi no meio de um naufrágio e logo depois lutando pela sobrevivência num bote na companhia de um tigre de bengala, o Richard Parker, melhor que muito coadjuvante em muito filme por aí.

Seus devaneios religiosos, então, não podem ser exatamente encarados como o filme expõe, como por exemplo Pi agradecendo a uma benção, ou milagre, mas enxergados como um estudo dessas religiões dentro da história. Fé e razão se conflitam ao longo da projeção, mantendo a identidade do diretor que apenas propõe o debate. Sendo assim, Ang Lee muito aparentemente nos apresenta o obvio, mas com todas as entrelinhas possíveis ao fim não duvida da existência divina, e nos joga essa questão sobre a veracidade ou não do que foi descrito no filme.

É a mensagem mais linda, deixado pelo final honesto e sem hipocrisia, que dá ao publico total liberdade para crer ou não. Deus pode sim, ser a divindade que muitos acreditam, bem como pode ser também a força da natureza já explicada cientificamente se apresentando com toda sua fúria para o homem teme-la ou adorá-la. É o grande acerto de Ang Lee, que para bom entendedor, não se deixará ofuscar apenas pelas falas ou pelos discursos e vai viajar junto do diretor em seus delírios visuais que são um show a parte.

Com isso, As Aventuras de Pi a quem souber apreciar, não será ingresso jogado fora, uma vez que a tempos não se via um filme proposto a debater tão fortemente um assunto tão difícil como a religião sem se deixar levar por coisas obvias ou verdades absolutas. Uma bela surpresa para a safra do cinema de 2012.

*curiosidade interessante: o livro que inspirou o filme, escrito por Yann Martel, foi inspirado numa obra brasileira, do escritor Moacyr Scliar chamada Max e os Felinos.