,


Crítica – A Onda

“Qual é o parasita mais resiliente? Bactéria? Um vírus? Um parasita intestinal? Uma ideia. Resiliente. Altamente contagiosa. Uma vez que uma ideia tenha dominado o cérebro, é quase impossível erradicá-la. Uma ideia completamente formada – completamente compreendida… isso se fixa em algum lugar lá dentro.”

Eu não podia começar essa crítica de outra maneira, senão citando um dos filmes mais inteligentes e complexos que já tive o prazer de assistir, A Origem. Um filme sobre sonhos e sobre ideias. Enquanto no longa de Nolan, a percepção de ideias precisa vir de dentro, em A Onda, elas surgem de fora, trazidas de um passado histórico em que, aberta ou discretamente, muitos alemães apoiaram o regime de Hitler e que seus descendentes ainda tentam esquecer para um presente onde a alienação reina e qualquer melhoria é bem-vinda. No entanto, a sucessão de acontecimentos apresentada pelo mesmo, como a reforma da sociedade em busca de um mundo superior no futuro, indica que poucas vezes antes a frase de Maquiavel, “Os fins não justificam os meios”, fez tanto sentido.

As transformações começam a ocorrer quando Rainer Wegner, professor do ensino médio, deve ensinar sobre autocracia a seus alunos. Propondo uma experiência que esclareça os métodos sobre poder e fascismo, cria-se o grupo denominado “A Onda”, tendo Wegner como líder. Tão logo tem início esse movimento, tão logo consigo visualizar a forte influência que os professores possuem para com seus alunos. Mesmo com essa consideração, o filme deixa claro que, desde o início, o propósito de Wegner era apenas instruir seus pupilos, não instigá-los a exportar os princípios estudados além da sala de aula.

Para demonstrar como uma ideia domina rápida e simultaneamente diversos indivíduos, todo o processo, do nascimento ao ápice do movimento, acontece em apenas uma semana. Em uma semana, os integrantes do grupo, que só aumenta, disseminam a ideologia do movimento e também medo para com aqueles que são contra. E o mais incrível é que, inicialmente, concordo com seus atos, até aceito algumas infrações à lei, pela finalidade inicial e pelo bem maior.

Apóio inabalavelmente “A Onda” até que o julgamento do que é certo e errado fica deturpado, até que as consequências das ações se tornam nulas, até que não existe mais controle de Wegner sobre a turma, até que a dita autocracia se transformou em uma quase anarquia. A partir daí, como um legítimo vira-casaca, troco de lado e percebo que a manipulação extrapolou a sala de aula, ultrapassou os limites ficcionais e penetrou em mim, me cegou, mudou algo em minha mente. Enquanto me vejo perplexo com as ideias desse movimento e protegido pelos limites da tela, pessoas dentro do filme sofrem as consequências, tanto aqueles contra quanto aqueles a favor. No instante em que noto a força de tudo isso, maravilhado penso: Isso é que é cinema!

Os minutos finais desse intenso e reflexivo filme arranham um pouco a obra como um todo por manter sua narrativa linear no clímax, quando podia, e deveria, ter alcançado um apogeu quase orgástico. Ainda assim, A Onda excedeu todas as minhas expectativas e tornou o nazismo, com seus conceitos e efeitos, um objeto de estudo ainda mais atraente, não para adotá-lo, mas para compreendê-lo a ponto de não repeti-lo. E pensar que o episódio retratado no filme aconteceu na Califórnia, em 1967. Assustador.

Comments

Leave a Reply

One Ping

  1. Pingback:

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments