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Crítica – Amor Impossível

E aqui começa mais um episódio de “Mutilando o título original”: de Salmon Fishing in the Yemen (algo como Pesca de Salmões no Iêmen) para, acreditem, Amor Impossível. Sei que uma tradução literal, ou mesmo adaptada do nome inglês não lhe cairia muito bem (até porque, o original é um tanto quanto estranho), entretanto, após anos e anos cometendo esses mesmos deslizes, as distribuidoras brasileiras ainda teimam em acrescentar amor, vida, caminho, além dos “provérbios” tipicamente tupiniquins ao nomear filmes. Algo aí tem que mudar.

Arriando a bandeira por traduções coerentes, temos um xeique visionário que acredita que a arte da pesca do salmão pode enriquecer a vida de sua gente e que decide levar a pesca esportiva para o meio do deserto. Um projeto que vai mudar a sua vida e o curso da história política britânica para sempre. Por essa sinopse, que está presente na maioria dos sites, poderíamos esperar um filme, no mínimo, bom. Porém, o que vemos diante de nossos olhos é apenas aceitável.

Com essa premissa, é perceptível que a peculiaridade reinará durante todo o longa. E sim, lá está uma ideia totalmente sem sentido, que mesmo estando em conjunto de um bom elenco, soa pouco convincente. Desde a sua concepção até a sua execução, aliás. E ah, não acredite na última sentença dessa sinopse: além de o filme não mudar sua vida, pouco da política de qualquer lugar se transformaria porque um xeique decidiu importar peixes para pesca.

Há pouca comédia. Em algumas oportunidades, cenas de guerras. Já em outras, drama e romance com muita água e pouco açúcar. Não que eu condene a miscigenação de gêneros, apenas aprecio quando é, ao menos, satisfatória. Nesse caso, essa mistura não favorece nenhum dos estilos, tornando todos os segmentos, panos de fundo.

Não pensem que há apenas pontos negativos: O elenco que o compõe, mesmo não sendo digno dos prêmios a que foram indicados (assim como o filme), é agradável e desempenha de maneira eficaz seus personagens, cobrindo alguns buracos no desenrolar da trama. Emily Blunt e Ewan McGregor, ainda que sem a força de bom roteiro, possuem química e simpatia. E o alívio cômico, pouco, mas presente, fica por conta de Kristin Scott Thomas e suas frases sarcásticas.

Mas é pelas metáforas que a produção ganha um pouco mais de valor. Ao relacionar peixes/rios pessoas/fé/vida, grandes reflexões sobre como às vezes, necessitamos nadar contra a maré para conquistar objetivos, para sermos felizes são despertadas e chegam até nós de maneira fácil, sem a apelação costumeira.

Vemos, por fim, que o amor dos personagens de Blunt e McGregor não é tão impossível que careça compor seu título e que a pesca de salmões no Iêmen continua sendo um projeto louco, mas que, por vezes, precisamos desses ímpetos de loucura para ser quem somos, transformar vidas e seguir em frente. Só é triste pensar que Amor Impossível também é uma tentativa maluca de algo que daria certo, se tivesse sido melhor pensado antes de executado. Uma pena que toda a maluquice tenha resultado em algo comum demais.

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