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Crítica – Tubarão

Tensão de gelar a espinha

Por Rafael Lopes

Tubarão marcou o cinema. Engraçado constatar que um filme que tinha tudo pra dar errado ajudou a construir uma fase que perdura até hoje nos cinemas: os blockbusters, aqueles arrasa quarteirões com lançamentos extraordinários e bilheteria idem. O orçamento foi diversas vezes estourado, o elenco vivia em tensão e o tubarão mecânico teimava em dar problema, o filme foi um verdadeiro turbilhão em sua produção, e a frase que abre o texto pode ser contestada, só que, nos anos 70, parece que ser um diretor jovem e decidido, não apenas faz diferença, faz história.

Steven Spielberg era uma aposta. Vinha de filmes menores e muito bem encarados pela crítica, Tubarão seria seu passaporte definitivo para o Spielberg que conhecemos hoje. Mas ele sabia que a história poderia ser outra caso tudo viesse abaixo, como estava acontecendo, é onde começa a caminhada de Tubarão ao sucesso e de Spielberg a ser um dos grandes lotadores de cinema de todos os tempos. Com um truque bem básico, e que é decisivo na composição de um filme foi o responsável por tornar Tubarão um dos grandes momentos da história cinema: a edição.

Alfred Hitchcock quando filmou aquela famosa cena do banheiro, quando Janet Leigh é esfaqueada em Psicose em nenhum momento precisou mostrar a faca cortando a carne da loirinha ou o assassino ou qualquer outra coisa que entregasse de cara o filme. Tudo foi construído de acordo com o que o cinema pode proporcionar, sendo assim, tem-se o melhor do suspense e o melhor do horror quando se brinca com o psicológico de quem assiste, apenas sugerindo. Tá aí a explicação para que tenhamos grandes filmes do gênero que não precisem de banhos de sangue para serem assustadores. Aqueles acordes desafinados deixavam claro tratar-se de uma morte anunciada e a edição, ela fez o resto.

Spielberg precisou “hitchcoquear” para ver seu filme sobreviver, e deu certo. Uma equipe muito competente e um diretor que sabia o que era melhor para seu filme, que só vinha dando errado. Primeiro, tratou de ocultar a grande estrela do filme, um tubarão branco gigantesco. A criatura pouco aparece, mas ela está presente em quase todo o filme. Como isso? Primeiramente há de se considerar John Willians, um dos maiores mestres das músicas do cinema. O tema do tubarão é até hoje uma das maiores referencias para o cinema de terror, uma vez que a música deu o formato do monstro. É uma música com acordes que levam à angustia, ao medo, ao desespero, dando o tom quando a máquina de matar perfeita aparece.

O trabalho da música é muito preciso e graças à edição perfeita, casou maravilhosamente bem com o filme. Na edição, Verna Fields – ajudada por Spielberg – coloca em prática os ensinamentos de Hitchcock, e não mostrando nada acaba mostrando tudo. Como assim? Oras, sugerindo. O filme é um grande manipulador, isso sim. A fúria com o qual tece uma teia que prende o espectador com toques simples de puro nervosismo, prende a quem assiste até o fim. Ou seja, pra que adicionar sangue e tripas e ataques vorazes para chocar se é mais vantajoso trabalhar isso no espectador aos poucos e com mais efeito? É o que Tubarãofaz, é como vai consolidando seu horror.

A edição é a parte mais brilhante do filme, sem duvida. Apesar de alguns muitos erros tolos de continuidade – perdoado pelo fato de o filme ter sido literalmente “montado” – é o grande ápice de tudo o que se passa. Cada cena onde entra a trilha sonora marcante é um desespero só; cada diálogo sendo construído com o efeito de um tiro, juntando ali os vários lados do entretenimento puro sem largar mão de sua intenção original: estimular o medo. Tubarão era uma pedra preciosa que foi muito bem lapidada. Cinema é conjunto e várias partes que resultam num grande trabalho. Então, junto da direção inspirada e da edição primorosa e da trilha sonora tão marcante, temos um trio que arrebenta na atuação, com destaque para Robert Shaw e o monólogo perfeito quando lembra da guerra e seu contato com as feras dos mares.

Roy Scheider e Richard Dreyfus também seguram muito bem as pontas e convencem demais em seus personagens. E o que dizer do roteiro? Nunca um terror assumido junta ali o medo e o espirito aventureiro em dois atos muito bem casados, contando ainda com diálogos bem bolados e cheios de situações instigantes como a do prefeito negligente e a chocante morte do menino no mar. De resto, uma sucessão espetacular de cenas antológicas que vão do primeiro ataque que já é uma das cenas mais inesquecíveis do cinema ao duelo final, entre a fúria da mãe natureza e o homem impotente em tamanha fome de destruição.

É sem dúvida um dos filmes mais sensacionais já feitos, e construído na raça e no talento. Obra prima.

 

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