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Crítica – Indomável Sonhadora

O filme que vai ganhar seu coração

Por Rafael Lopes

Indomável Sonhadora desponta como um dos mais curiosos filmes americanos dos últimos anos. O diretor Benh Zeitlin usa como pano de fundo o catastrófico episódio do furacão Katrina que só piorou a vida dos já excluídos moradores da “banheira”, uma pequena ilha pantanosa que oferece mais dificuldades a seus moradores que o simplório benefício de ter um lar. Nesse cenário Wink (Dwight Henry) cria sua filha Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) a sua maneira.

De primeira, um abismal espaço separa os dois. O homem que vive na região criando de maneira peculiar uma criança que com seus 6 anos precisa assumir responsabilidades de uma mulher madura. É por isso que não divide o mesmo teto do pai, é por isso é obrigada a viver como um animal feroz para jamais temer qualquer criatura que precise comer um dia, é por isso que transborda uma força maior que sua pequena idade. E é dessa forma que é desenhada ao longo da trama a relação sincera entre eles. Por mais que essa distancia entre eles seja natural, ambos sabem que é necessário, ambos interpretam isso a sua maneira e ambos entendem que não podem viver separados – sendo o ato final o momento mais intenso entre eles.

Sendo assim, Hushpuppy divide seus dias entre ser criança e ser uma força da natureza capaz de sobreviver a todas as adversidades. Dessa maneira, Zeitlin utiliza seu ponto de vista para suavizar uma história que é muito mais familiar a nós, brasileiro por exemplo. Trazer a pobreza americana é um trabalho que exige não coragem, mas honestidade, sensibilidade. O grandioso contraste entre a soberania do povo americano e seus esquecidos pesa muito para a criação do universo de Indomável Sonhadora.

A população da banheira serve como um ensaio do que veríamos em grandes cidades desenvolvidas e ricas: pessoas que não escondem a relação simbiótica com o meio onde vivem. Hushpuppy é de certa forma um exemplo prático disso. A menina exala coragem, mesmo que descarregando as crueldades da vida em devaneios povoados por criaturas selvagens e pré-históricas que imitam seu cotidiano. Tecendo essa relação, acompanhamos sob o olhar documental de Zeitlin o amadurecimento precoce da criança, que aprende a unir a inocência natural da idade com a realidade dura que a cerca.

É nesse momento que Quvenzhané Wallis cresce. Sua estrela brilha, pois sendo muito bem dirigida, ela cresce frente à tela, transbordando coragem sobre a infantil fragilidade. Em meio a personagens tão ricos quanto ela – interpretados por pessoas locais – que agregam ao filme uma visão intensa, beirando o romantismo literário, de que não se pode mudar a natureza de uma pessoa.

Um filme rico e mágico, forte e inocente. Maravilhoso.

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  1. Eu gostei sim muito desse filme, nunca comentei aqui no site e só queria dizer que acho que se cada filme minimamente bom continuar recebendo 5/5 nas avaliações essa crítica vai ficar pior ainda.

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