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Crítica – Django Livre

 

 

Até onde vai a brincadeira de Tarantino?

 

Por Rafael Lopes

Um faroeste, 165 minutos, razão de sobra pra questionar se vale ou não a pena ir ao cinema. Só que aí, bem grande no cartaz está escrito: dirigido por Quentin Tarantino. Vê-me duas entradas, moça? Antes de falar do filme, é preciso entender que o que está prestes a começar é mais um momento como poucos no cinema, um dos diretores que mais entendem que um grande filme deve ser visto na tela grande, na sala escura, no som potente, e que você veja que a pessoa a seu lado compartilha do prazer de estar assistindo a uma grande obra. Tarantino entende que um filme precisa conquistar o espectador, estimular o tesão em ver o filme. Tarantino entende isso, e por isso não erra nunca.

Com essa ideia em mente, Tarantino cria um espetáculo visual, violento, musical, forte, sensível, épico. Django Livre é o que há de mais inovador em sua filmografia. Sem precisar quebrar a história em várias tramas e sem precisar de muitos protagonistas, ele simplesmente junta tudo e dá a luz a um de seus melhores momentos como cineasta. A jornada de Django (Jammie Fox) para resgatar sua esposa da Candyland de Calvin Candi (Leonardo DiCaprio) vira um show na tela.

Como poucos, Tarantino é daqueles saudosistas que muito bem sabe captar a essência dos gêneros, tal qual o fez com os filmes de artes marciais em Kill Bill, nos de ação com À Prova de Morte e nos de guerra com Bastardos Inglórios, é a vez do faroeste. Interessante como ele o faz sem parecer paródia ou uma homenagem romantizada. É a assimilação dos ensinamentos dos grandes mestres do cinema autoral, fazendo surgir assim um filme que não rompe com os vícios de linguagem tão comuns nesses gêneros, mas dá a eles uma roupagem original, pessoal e que muito encanta. Por isso há uma certa obrigatoriedade em ver um filme como esse no cinema.

Muito bem apegado a isso, temos Django, um escravo caminhando sob pedras, ajudado por King Shultz (Christoph Waltz), liberta-se, torna-se um caçador de recompensa e cresce junto com o filme, chegando ao momento derradeiro de sua jornada: resgatar sua esposa numa fazenda. O velho conto de vingança com contornos mais épicos do que se imagina. São personagens em excesso – mas nenhum descartável – e violência em excesso e o flerte delicioso com o blaxsploitation (brincadeira já feita em Jackie Brown) que unem as já conhecidas características de Tarantino com suas pretensões.

E suas pretensões rendem exatamente o esperado. A violência é mais uma vez o grande espetáculo, sendo ela utilizada de todas as formas, como em Kill Bill, sangrenta, sem dó, crua, e ainda assim com uma beleza única. Destaque para o tiroteio na Candyland, um banho de sangue digno. Junto disso, Tarantino nos oferece sua visão desse período tão triste para a humanidade, que é a escravidão. O que não falta é demonstração de atrocidades, e ele o faz não de maneira a nos emocionar, mas de uma maneira intensa, que faz crescer não apenas em Django mas no espectador também o desejo de vingar tamanha atrocidade.

Dai saem momentos interessantes, como Django batendo nos feitores com o chicote e ainda uma das grandes sacadas de Quentin Tarantino em sua filmografia: quando Django precisa se passar por um racista e cria uma das cenas mais espetaculares do filme. É um lado que Tarantino sempre pouco explorou e que aqui se sai tão bem tal qual um veterano. O desenvolvimento de cada veia do filme rende resultados absurdos. Sergio Leone fazendo escola e devidamente representado.

Com os atores sobrando nas cenas, com destaque para o vilão de Samuel L. Jackson, um monstro em cena, e a explosiva participação de Tarantino, Django Livre é novamente Quentin Tarantino beirando a obra prima. Se toda vez que ele lançar um filme, vier com essa pegada, ele vira um mito do cinema, e quem sabe um dia esteja ao lado dos mitos que tanto o inspiram. Esperar para ver e se deliciar com mais um divertido, inventivo e espetacular filme com o selo de qualidade Quentin Tarantino.

*Franco Nero perguntado a Django seu nome. Os fortes entenderão.

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  1. Estou louca pra saber se alguém teve a mesma ideia que eu ou reparou (ou se eu estou viajando, hahaha); existem duas cenas nas quais aparece uma mulher mascarada, e na segunda fica visível que ela é loira e possui os olhos verdes. Eu, possivelmente viajando, lembrei do documentário (Tarantino’s mind) sobre a ligação entre as histórias, e o fato de que provavelmente só terão mais dois filmes do diretor, e pensei na possibilidade daquela loira ser Uma Thurman, numa referência do que pode estar por vir. Alguém viajou assim também? hahahahaha.

  2. Irene, na verdade aquela não é Uma Thurman, ela é Zoe Bell, que acredite, foi dublê da Thurman em Kill Bill e protagonizou À Prova de Morte.

  3. Fui assistir e A-D-O-R-E-I! Pra quem gosta de filmes com tiros e marmeladas (rs), está super indicado.

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