,


Crítica – O Mestre

 

Por Rennan A. Julio

 

Como uma linda foto de algo terrível, O Mestre choca de modo cru, mas emociona em sua arte.

 

 Em forma de auxílio, tirar proveito das cicatrizes de uma parcela da sociedade ainda marcada pelo vazio de uma grande guerra se torna, de maneira messiânica, simples para o homem que carrega carisma aliado à retórica e ainda mais cômodo para o ignorante bruto que aceita qualquer tipo de incentivo. O Mestre concentra em seus personagens a ideia antiga da salvação por meio do interlocutor. Paul Thomas Anderson usa como base de seu filme a Cientologia para explorar as origens desses tipos de seitas, cultos e religiões.

Com uma das melhores fotografias dos últimos filmes que pude assistir, a obra conta a história de Freddie Quell (Joaquin Phoenix maravilhoso, assustador e repugnante; grande responsável para que o filme seja considerado ótimo), um antigo soldado que acabara de retornar de sua missão durante o período pós-segunda guerra e que agora procura se readaptar a vida comum. Não importando seu cargo ou emprego, sempre que pudesse, Freddie realizaria seus experimentos alcoólicos quase assassinos. Então que um destes líquidos horríveis (táteis e pesados, assim como seu criador) supostamente mata um de seus companheiros de trabalho, forçando, assim, a fugir de seu local de trabalho para dentro de um barco onde ocorria uma festa. A partir deste momento, O Mestre inicia sua jornada entre líder e subordinado. Pois que Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman passa a calma de um pai e ira de um tirano sem esforço, trazendo ao seu personagem a medida necessária de excesso e calmaria) recepciona esse “homem com problemas” para uma série de testes regrados, complexos e, inclusive, confusos.

A extrema crença dos seguidores de Lancaster pode ser refletida e comparada com muito do que se vê hoje no mundo. Com um pouco de carisma e muita lábia é possível conquistar públicos incontáveis, até mesmo radicais defensores de algo que sequer entenderam ou conseguem explicar. A salvação está na independência do pensar, pois este fardo foi roubado, digerido e transmitido por aquele que se considera a voz da resposta. Cegos e inexatos, estes seguidores acabam se mostrando mais interessados no lançamento de um próximo livro do que nas perguntas sem resposta do primeiro.

A relação fortalece para ganhar o teor de cumplicidade, assim tornando a dor de um homem doente na dor de quem não consegue salvá-lo. Amor baseado na decepção e no ódio, a espera da cura para aquele que necessita tanto quanto para aquele o qual deseja realiza-la. Fatores suporte de uma relação doentia, explosiva e, na realidade, mais sustentada na troca de favores (como a entrega de folhetos ou surrar os que são contra sua filosofia) do que na de médico e paciente.

Devo ressaltar que, tecnicamente, o filme de Thomas Anderson é maravilhoso. Tanto no controle de seus personagens, na fotografia tão bela que às vezes parece simples, e, também digno de se notar, na trilha sonora surtada da obra. Tenho a impressão de que nada durante este filme deve ser interpretado comumente, desde Joaquin Phoenix e suas crises internas e externas (o ator se retirou da sala de imprensa sem se explicar a ninguém durante a coletiva de divulgação), até a trilha que leva o filme de maneira confusa, caótica e natural como um drink de combustível de míssil.

Comments

Leave a Reply

One Ping

  1. Pingback:

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments