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Crítica – A Feiticeira da Guerra

“Será que você, meu bebê, está cheio de veneno e por isso eu vomito desse jeito?”

Produções cinematográficas sobre guerras civis provocam certa resistência no público, pois o mesmo já tem conhecimento de que a violência usualmente apresentada nesse tipo de filme é intensa, constante e desagradável.  Os espectadores também antecipam a dor que habita ou habitará a vida dos personagens e por fim, se dão por satisfeitos com o sofrimento de seus dramas pessoais, ignorando a película.

Ao menos, é assim que entendo a minha antiga posição perante esses longas, mas saibam que a pouco, esse conceito me foi desmistificado por um surpreendentemente simples e poético filme: A Feiticeira da Guerra.

Com uma edição de som poderosa, vemos as primeiras cenas apavorados, revoltados e mexidos pelo conteúdo de horror que é exibido. Nesse momento, a nossa protagonista se aproveita de sua expressão impetuosa para salientar, além do talento da atriz Rachel Mwanza ao interpretar Komona, a desumanização que os conflitos germinam.

Fustigada a todo instante pela realidade turbulentamente verossímil apresentada pelo roteiro, Komona se transforma, a contragosto, em uma criança-soldado. Em poucos minutos, o brilho que julgávamos enxergar em seus olhos juvenis já é entendido como imaginação.

Mesmo adequadamente executado, nota-se que não há nada de excepcional até aqui, mas eis que começamos a nos deparar com devaneios que, de tão bem explorados (ainda que proporcionando interpretações dúbias), resultam em uma composição poética da morte.

Indo ainda mais além, o diretor Kim Nguyen expõe o aspecto mais importante de sua visão dos conflitos, aquele que será companheiro e mentor fiel do desenrolar da trama, mesmo com as adversidades: O amor. Inocente, pleno e em todas as suas formas.

Atada a esse sentimento, A Feiticeira da Guerra utiliza-se de situações divertidas, ternas e esperançosas, moldando-se única ao abandonar noções consumidas tão vorazmente pelos longas que a antecederam.

Carregado de diálogos pesados, como o citado no início da resenha, e atitudes belas e também cáusticas, encaminhamo-nos a um final… não do tipo feliz, todavia otimista.

No cenário cinematográfico atual onde filmes sobre guerra tratam a realidade como se fosse um adversário em um ringue de boxe com pancadas e mais pancadas, nocauteando o espectador com seu término, A Feiticeira da Guerra percorre o caminho inverso: Cenas onde é violência pura existem, contudo até essas sequências conseguem manifestar a infância no meio da guerra, o amor no meio da guerra e que há muito mais que rebeldes, existem pessoas lá que sofrem de todos os males que nos atormentam de modo ainda mais intenso e ininterrupto. Coragem e humanidade em forma de filme.

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