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Crítica – A Vida de Brian

A Vida de Brian (Terry Jones, 1979)

A santa comédia

Por Rafael Lopes

Uma estrela corta o céu no primeiro natal. Chegam à um estábulo os três reis magos, com presentes a serem dados à uma criança especial, que nascera naquele dia. Mas acabam se deparando com uma mulher que fala demais e uma criança que não chama Jesus, mas sim Brian, apenas Brian. Nasceu para ser normal, mais um no mundo, mas por ter dividido o local de seu nascimento com alguém bem mais ilustre, vai sentir na vida a responsabilidade de ser confundido com um Messias. Seus discípulos serão rebeldes que lutam pela libertação do povo judeu, sua mãe não terá nada de santa – tampouco virgindade – e ainda enfrentar o fato de ir parar numa cruz por não acreditarem em suas origens romanas.

O texto ácido e genial da trupe dos Monty Pythons mais uma vez dá o tom de mais uma de suas obras primas: A Vida de Brian. Não se trata exatamente de um filme que parodie a vida de Jesus Cristo, mas sim um filme que de maneira subversiva ironiza e critica religião, ideologias em suas várias formas, fanatismo e por aí vai. De política à religião os Pythons fazem piada de tudo, com a maestria e perfeição que os destacaram entre tantos comediantes. O filme não insiste que Brian seja uma versão deles de Jesus Cristo, mas desse detalhe fazem surgir sua maior piada e contestação: como surgiria um Messias?

Brian em sua “jornada”, ao tentar se unir a um grupo rebelde, tidos como terroristas pelos soldados romanos, acaba cruzando todo tipo de situação que fazem o povo, seguidor de vários outros Messias, o enxergarem como um salvador. É a partir daí que fazem tudo valer como motivo para virar piada, ou em alguns casos, uma severa crítica. Em um dos pronunciamentos de Brian – após aparecer nu na frente de uma multidão, uma demonstração de que ele é apenas um reles mortal – ele diz que as pessoas não sigam à alguém, tampouco se deixem dominar por ideias dominadoras, mas sim, que sejam independentes e acreditem em si.

Não é exatamente uma piada, como o Enoulmus Pilus, mas uma constatação que de tão verdadeira incomoda. O que se tem a toda volta são homens que se julgam porta vozes de Deus – ou qualquer outra entidade, depende da religião – que procura antes de tudo tirar proveito da inocência ou boa vontade das pessoas. É o que torna os filmes dos Pythons as vezes erroneamente interpretados, principalmente por quem segue à risca esses conceitos que eles tanto criticaram ou tiraram graça. É graças a essa ideia que os caras vão fazendo por meio de coincidências, nunca uma ligação direta, a vida de Brian bater com a de Jesus. Mas por ele ser um bom homem, acabou crucificado.

As risadas são garantidas, obviamente, estamos falando só do grupo que revolucionou o humor na cultura mundial, mas há algo além de risadas, e isso se estende às outras produções do grupo. As reflexões sociais, como o apedrejamento por uma heresia criada por homens, ou a política que nos representa com pessoas que nem mesmo sabem falar e dizem que nos representam fazem o filme valer a penas muito mais do que meramente como comédia. É onde reside a maior importância e o legado do grupo ao humor. É engraçado e quando lembra que os assuntos tratados são sérios e importantes, consegue o que querem, despertando o interesse do espectador em abrir os olhos para todos os detalhes.

E A Vida de Brian é mais uma amostra disso, quando ao desconstruírem de maneira respeitosa e inteligente a ideia de salvador empregado a qualquer um e da forma que bem se entende, não deixam a desejar em matéria de comédia e em matéria de reflexão social. Isso é Monty Python, e por isso, obrigatoriamente genial.

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