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Crítica – Z

Um filme obrigatório

Por Rafael Lopes

“Qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas não é casual, é intencional”.

A frase que abre o filme já dá o tom da obra: provocação. Em todos os aspectos. Costa-Gavras, que genialmente filmou tramas políticas como nenhum outro, faz de Z uma obra que vai além da documentação de um período conturbado da Grécia, faz uma denúncia arrebatadora sobre um sistema que será difícil de derrubar. Depois da 2° Grande Guerra, o mundo ficou dividido em duas partes, a capitalista e a comunista. Cada uma chegou onde deu, e no caso da Grécia, o medo era que as idéias comunistas fossem difundidas e alienasse o povo.

De cara, militares e políticos da direita comparam a chegada de ideologias à pragas que assolam plantações, e o único jeito de acabar com essas pragas é jogando veneno, cortando o mal pela raiz. Engraçado ver esses homens decidindo o futuro de milhões de pessoas apenas pensando em seu próprio bem estar. O fato é que os americanos e seus ideais capitalistas já muito bem consolidados na Grécia, queriam instalar ali um posto de mísseis, para possíveis ataques, e isso gerou uma série de protestos que culminaram numa tensão política foco desse filme.

Com o discurso de defender a democracia, bem como chilenos, argentinos e brasileiros escutaram quando seus países tiveram golpes militar, queriam que o comunismo não se alastrasse em seu território. A democracia que defendiam ironicamente dificultou qualquer manifestação esquerdista e pacífica, sem intuito de promover qualquer ideologia, mas sim promover alguma reflexão que levasse a alguma conclusão àquele caos todo. Isso cutucou os poderosos do sistema que começaram a perseguir impiedosamente quem estivesse ligado a comícios relacionados a esquerdistas. Nesse contexto, acompanhamos a dificuldade de um deputado para conseguir um espaço para promover um comício.

Até conseguirem um lugar, ameaças de assassinato e histerias sociais acontecem. Durante o comício, brigas, confrontos e a polícia comandada por um general pouco se importa, até que o atentado acontece. Uma pancada forte leva o deputado a óbito. Os militares, militantes da extrema direita, para proteger seus interesses fazem de tudo para abafar o caso, fazer tudo parecer acidente, mas na chegada de um novo juiz e um fotógrafo intrépido, que decidem investigar afundo o que aconteceu, uma série de novas descobertas desencadeiam uma série de situações que redefiniriam o sistema político grego.

Costa-Gavras faz um filme seco, direto, sem firulas e muito tenso. O ritmo é frenético, caçadas, diálogos ácidos, suspeitas, tudo o que um bom suspense político precisa, mas tudo em tom documental. Câmera na mão para abusar do realismo, violência seca para ser direto ao ponto: isso está certo? É assim que deveria ser?

O melhor é focar onde mais dói aos que estão no poder, que nesse caso, odeiam que os ideais comunistas sejam difundidos, porém, nas escolas panfletam para as crianças, encorajam o serviço militar para moldar a mente dos jovens, repudiam intelectuais e deixam o trabalho sujo para analfabetos, bêbados e marginalizados. O diretor chega nesse ponto com uma eficiência tremenda. O roteiro baseado no livro de Vassilis Vassilikos abusa desse artifício para gerar uma reflexão bem vinda: seriam mesmo os comunistas os vilões?

O filme não é comunista, o diretor não defendia o comunismo – tampouco o capitalismo – e quem escreve essa resenha não simpatiza com nenhum lado, mas veja bem, seriam mesmo os comunistas os grandes vilões, que tanto reprimiram e que tanto dominaram intelectualmente, uma vez que os capitalistas faziam a mesma coisa?

Gavras e sua obra questionam isso, criticando o sistema totalitarista e nos fazendo enxergar um pouco mais afundo, os bastidores da política e seus interesses. O filme aqui pelo Brasil chegou a ser censurado na época de seu lançamento, e os brasileiros só puderam assistir já nos anos 80, com a abertura política. Teriam os militares ficado ofendidos com o filme? Gavras conseguiu o que queria.

O filme, maravilhosamente editado – com direito a flashs do passado de alguns personagens, entregando mais sobre seu passado e contribuindo muito pra a construção deles – causa tensão e vai se afunilando até chegar a um fim inesperado. A ultima cena é de uma honestidade e falta de esperança tão grandes que chega a chocar. Em compensação, vem carregada de um tom irônico, como se proibições como usar minissaias fosse evitar que os movimentos contra a repressão morressem. Z, em grego antigo, ele está vivo. E isso não se refere ao deputado morto.

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