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Crítica – Fome Animal

Fome Animal (Peter Jackson, 1992

O banquete de Peter Jackson

Por Rafael Lopes

Em um dos momentos mais bizarros de Fome Animal, um dos filmes mais incríveis da carreira de Peter Jackson, Lionel (Timothy Balme) leva um bebê zumbi para passear num parque e rende um dos momentos mais peculiares do cinema, numa briga que de certa forma, deixa chocado a todos que estão no recinto. E é dessa forma que o filme se desenvolve, com uma aberração criativa atrás da outra. Esperteza narrativa ou sacanagem? Creio eu, um pouco de cada. Mas tudo com muito bom gosto.

Depois do trash estiloso Náusea Total, molecagem entre amigos que fez o mundo underground abrir os olhos a esse talentoso neozelandês, está condensado em pouco mais de 90 minutos tudo o que um bom filme no estilo poderia proporcionar. As risadas são garantidas, o gore é incessante e a cada nova revisada à essa pérola, só faz aumentar ainda mais o carinho pelo filme. É tudo simples, porém, com as sofisticações técnicas que são características do diretor. Ao mesmo tempo que tudo soe caseiro, há escondido nas sombras uma alma grande, onde nota-se uma preocupação e uma dedicação em oferecer o melhor com aparentemente tão pouco.

Toda a essência de um terrir, ou comédia/terror ou simplesmente trash, estão nesse filme, e todos bem encaixados e bem conduzidos. Do inesquecível Sengaya ao embate final com o cortador de gramas e a festa zumbi, tudo nesse filme é de um charme impagável. É impossível não ser conquistado pelo carisma das criaturas. Sim, até aquele estômago que peida e reza conquista ao espectador, ou o padre que perde a boca num beijo , a enfermeira com a cabeça prestes a cair entre outras criaturas que atormentaram a vida do Lionel e renderam momentos memoráveis.

Trata-se da história do desajeitado filhinho da mamãe, interpretado com muita competência por Timothy Balme, a princípio um Zé ninguém, que corre para debaixo da saia da rabugenta mãe para agradá-la, mas que logo se torna um lutador, enfrentando de cara os mortos vivos que assombram sua vida. Ainda que tudo seja contada da forma que pareça mais absurda possível, com direito a furos e erros cronológicos evidentes, o cara descobre a origem da sua vida e ainda enfrenta o seu destino negro de forma heróica. Mas ele também tem um coração de ouro. A fidelidade cega à mãe e a forma como trata os zumbis remanescentes de seus exageros mostram bem isso.

Pakita, a latina com traços ciganos que possui o destino ligado à ele é outra peça importante. Muito mal interpretada, o que está longe de ser um defeito, por Diana Peñalver, ela grita e abusa de caras e bocas, mas assim como o estômago morto vivo peidão, é difícil não ficar encantado com ela. O traço principal das personagens dessa história, é justamente o que as torna mais envolventes: as caricaturas. O padre que luta artes marciais em nome de Deus, a mãe super protetora, o tio chato que quer a herança da velha entre tantos outros (até os zumbis são caricatos) só engrandecem de certa forma o filme. Isso, que poderia ser considerado erro em outros gêneros, é aqui, um dos grandes acertos.

A história, meio batida mas ainda assim eficaz dentro da proposta do filme que é pura e simplesmente divertir com muito sangue e tripas e membros, não trás nenhuma novidade. Junta clichês de quase tudo que o terror já fez e desenha uma trama que se desenvolve de uma forma correta e com exageros que marcam o que eu quis dizer com sacanagem, no início do texto. Mas é aí que mora a grande delícia da coisa toda. É tudo tão mal feito que encanta. E nem preciso desligar o cérebro.

Sem subestimação e sem lenga lenga, o que vale é a diversão, e nesse caso, é o que mais tem. Os momentos mais antológicos do filme são justamente os que mais arrancam risadas, seja ela involuntária ou não, a diversão é garantida. E Peter Jackson, num exercício dentro do estilo que o consagrou, se sai bem. Seu planos mal executados, a trilha sonora mal encaixada (e muitas vezes irritante – mas ainda assim muito boa dentro do filme) os cortes, tudo executado com o máximo de porquidão. Mas que no fim das contas, é nada menos que incrível.

A transição das pessoas de verdade para seus respectivos bonecos desmembrados é no ponto, as piadas fluem de maneira natural e a ação é bem colocada sem servir de pretexto pra nada e sem precisar de pretexto pra existir. O que torna esse tipo de filme tão amado é justamente o fato de não esconder que é ruim. Os exageros e suas falhas propositais (ou não) são tão maravilhosas que tudo ali chega a inspirar.

A forma artesanal como o filme é feito, desde a maquiagem aos efeitos visuais em stop motion são de um charme envolvente. A primeira vista é ruim de doer, mas com o passar do tempo, parece que aquilo tudo é perfeito, e desbanca muito CGI da vida. E isso ainda chama a atenção. Os absurdos são tão bacanas que perdoamos tudo aquilo em nome da diversão sincera e sanguinolenta que nos é proposto.Os diálogos, as gags, o gore em excesso, tudo exagerado e nada soando exagerado . Aí que se encaixa a esperteza narrativa a qual me referia no começo do texto.

A brincadeira toda fez o mundo cinematográfico abrir mais ainda os olhos para Peter Jackson. O cara mais uma vez provou que se pode obter qualidade com poucos trocados. O que basta é apenas o essencial para qualquer um que viva da arte sobreviver: criatividade. Ainda que hoje ele esteja esbanjando dinheiro, executando filmes caros, ele deu uma grande lição de como fazer um filmaço sem os milionários orçamentos de Hollywood. O filme custou cerca de 3 milhões de dólares, com direito a uma Stedicam feita pelo próprio diretor para as filmagens. Milhares de litros de sangue de porco e com direito a saco de vômito dado grátis por locadoras na Suécia, e com direito a versões censuradas em alguns países. Isso só aumentou de certa forma o carisma e o fascínio por essa obra tão incrível.

Esse é daqueles que se pode dizer: essencial a um cinéfilo! Aos chatos exigentes e aos que morrem de nojinho, que fiquem longe. Aqui o sistema é bruto, e quem tem bom (ou mal, depende do ponto de vista) gosto, certamente vai se divertir a valer. É uma pequena obra prima.

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