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Crítica – Kill Bill – Volume 1

Kill Bill – Volume 1 (Quentin Tarantino, 2003)

KILL BILL

Volume 1

Por Rafael Lopes

“Eu sou Sádico?”, diz Bill (David Carradine) antes de acertar um tiro na cabeça de uma noiva que acabara de ser surrada. No ensaio de seu casamento, uma mulher assistiu a todos os presentes serem assassinados pelo Esquadrão de Morte Víboras Mortais, liderado pelo já citado Bill, composto por Vernita Green (Vivica A. Fox), O-Ren Ichii (Lucy Liu), Elle Driver (Daryl Hannah) e Budd (Michael Madsen), sendo que cada um deles possui como codinome uma espécie de cobra. Assassinos extremamente eficazes, mas que deixaram uma sem o amargo gosto da morte.

A Noiva (Uma Thurman) passa 5 anos em coma, e desperta pronta para a sua vingança. Vingança essa motivada por um ódio incontrolável já que seus amigos foram friamente e covardemente assassinados e a criança que estava prestes a nascer fora retirada. Primeiro ela visita Vernita. Um show de luta coreografada, socos rápidos, chutes fortes, câmera nervosa, a casa sendo destruída e uma pausa para a criança que volta da escola. Vernita tenta ser esperta e o golpe final da Noiva é mortífero. Sua vingança começou.

O que lhe resta é procurar qualquer indício que ligue aos outros assassinos que curtem suas vidas. Elle parece ser a nova musa do Bill; Budd está no oeste apenas pressentindo que seu fim se aproxima e O-Ren vive no Japão torrando toda a sua grana e mandando no crime local; e Bill, apenas vendo a vida passar e já esperando um duelo final com a Noiva. O passado dela não é dos melhores, já que ela também pertenceu ao Esquadrão que destruiu seu casamento e ainda teve um caso com Bill, a quem um dia jurou amor. Mas se o crime da parte de Bill foi motivado por amor, os crimes por parte da Noiva serão motivados por ódio.

Ela parte para o Japão para encontrar com o famoso Htori Hanzo (Sonny Chiba) e ter acesso a uma das espadas mais mortíferas que existem. Entre diálogos de um perfeito japonês e uma preparação toda especial para empunhar a lendária espada, ela parte na caça da experiente assassina oriental. O resumo da vida dela, todo em Anime (desenho animado japonês) é lindo. Violento e ainda assim lindo. O-Ren virou chefe do crime no Japão e trata os traidores decepando suas cabeças como forma de punição. Ironia ou não do destino, a Noiva cuida dela de maneira parecida.

A vingança está iniciada e os nomes listados a lá Lady Snowblood – principal influência para este filme – sendo um a um pacientemente riscados. A Noiva está deixando um rastro de sangue, e só vai parar quando matar Bill.

Ainda nas filmagens de Pulp Fiction, o diretor Quentin Tarantino disse à Uma Thurman que seu próximo filme seria Kill Bill. Ele teve a idéia do roteiro ainda nas filmagens de Pulp Fiction, mas foi só em 2000 que o filme finalmente ganhou chance de sair do papel, e era apenas questão de tempo o filme ter sua produção iniciada.

Tudo em Kill Bill é de uma criatividade arrasadora. Quentin Tarantino buscou toda influencia que pode em filmes de Kung-Fu dos anos 70, Westerns Spaguetti e Blaxploitation e sem medo, montou uma narrativa de idas e vindas delicioso. Por mais que soe confuso, por mais que soe caricato, por mais que seja em alguns momentos tosco por opção (mas ainda assim um tosco de muito bom gosto), o que temos em Kill Bill como um todo é uma salada de referencias que, ao contrário de outras produções com o intuito de homenagear acabam e plagiando, consegue homenagear sem apelar para nada.

Desde o início, com a vinheta do Shaw Scope (famoso precursor de um dos gêneros homenageados aqui) até as músicas escolhidas, entre elas famosas músicas feitas para faroestes do genial Ennio Morricone, até mesmo em diálogos e personagens, em tudo há uma homenagem. E Tarantino não exige que tenhamos esse conhecimento em momento algum. O filme é muito acessível e aos espectadores que criarem curiosidade, pesquisar mais a fundo de onde o diretor tirou tantas coisas interessantes é um exercício de estudo sobre um cinema que tornou-se inesquecível.

Note que, atores que fizeram parte dessa história, como Sonny Chiba, do inesquecível Street Fighter na versão japonesa entre outros lendários filmes de pancadaria está aqui, e David Carradine (que infelizmente faleceu) famoso pela série Kung-fu e ainda Gordon Liu, lenda do cinema Chinês (aqui fazendo dois personagens). Tarantino disse que se Bruce Lee ainda estivesse vivo, seria convidado a participar, e mesmo com o monstro do cinema de pancadaria morto, repare no Onitsuka Tiger amarelo que a Noiva usa, o mesmo que Lee usou em Game of Death.E entre tiros, lutas marciais e muito sangue – cerca de 450 galões – Tarantino vai trilhando uma história de vingança ainda mais rica do que aparenta ser. Não reluto em chamar isso de genial.

A construção da história é feita no melhor estilo Tarantino. Nada de linearidade a primeira vista, idas e vindas que a principio incomodam, mas é só a pancadaria começar e estamos envolvidos. Aqui pela primeira vez o diretor conhecido por ser mais artesanal e fazer suas cenas com o máximo de simplicidade possível, usa cabos e efeitos digitais a seu favor. E consegue tirar proveito disso tudo criando momentos deslumbrantes. Mas claro, sem deixar de lado suas influências, deixando o tom de homenagem ganhar seu espaço e tornar cada frame do filme um sessão nostalgia deliciosa.

Tarantino se mostra aqui como grande diretor de cenas de ação, e a ação aqui não pára em momento algum. Bastam alguns diálogos sufocantes e envolventes, com o charme marginal do cara, e logo tem alguém perdendo um membro ou sendo detonado pelo ódio mortal da Noiva. Ainda que o apelo para a violência seja tão grande, Tarantino sabe bem como fazer a violência soar tão poética e linda em muitas passagens. Cito como exemplo, o escalpo de O-Ren caindo lentamente no chão coberto de neve.

A violência do filme mesmo soando gratuita e apelativa, possui em sua matriz uma metáfora sobre dor, ódio e vingança, os pilares que sustentam essa trama. Não dá para dizer que Kill Bill é um filme ruim apenas por se basear em violência pura para ter atenção do público. Esse preconceito infelizmente existe, e Tarantino só quer quebrar esses tabus. Contar a história por meio da catarse pela qual a protagonista passa é um desafio sem tamanhp, e Tarantino levado por seu grande talento consegue captar os significados disso, fazendo soar toda essa fúria desde o olhar até o assobio da lâmina da Hatori Hanzo despedaça os inimigos.

A construção da trama (que se assemelha muito a A Noiva Estava de Preto, de François Truffaut) e das personagens é trilhada com muita maestria e desenvoltura, marca do diretor que não deixa de montar seus personagens sem levar em consideração a ação. O psicológico de cada um, seus sentimentos levados ao extremo e casar isso tudo com ação sem deixar de ser inteligente é um mérito que Tarantino vem construindo desde Cães de Aluguel.

As atuações são consistentes e bastante seguras. David Carradine nem precisa aparecer nesse primeiro episódio para já demonstrar que é o Bill perfeito, e Uma Thurman, musa do Tarantino, mesmo com os pés mais envelhecidos, desde Pulp Fiction vem ainda mais explosiva, dividindo bem ação e drama numa atuação acima da média.

A trilha sonora, outra grande característica do diretor, é bem inspirada também. Costumo dizer que se Stanley Kubrick conseguiu casar música clássica com odisseias espaciais, Tarantino com toda seu conhecimento de cultura pop conseguiu casar músicas dançantes e deliciosas em um filmaço de ação e muita aventura, desenhando assim todo o clima que precisava para deixar sua assinatura: isto aqui é um filme de Quentin Tarantino.

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