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Crítica – Ferrugem e Osso

 Obra impõe que reparação de tragédia não deve ser uma missão solitária

Por Rennan A. Julio

 A ideia de que escolhemos as companhias que julgamos necessárias para os momentos adequados é antiga, mas o pensamento, aqui, é reforçado pela intensidade da situação. Tal conjunto de fatores fica explicitado quando Stephanie (Marion Cotillard gigante em um papel difícil. Desmerecida no Oscar) decide não aceitar a companhia e auxílio de seus familiares, mas escolhe Alain (Matthias Shoenaerts representa um bom lutador, mas é diminuído por Marion quando dividem a cena), um segurança de festas que havia conhecido poucos dias antes de seu acidente, para acompanhá-la no momento mais difícil de sua vida. Estas atitudes serão retomadas por todo o filme.

A obra inicia com Alain e seu filho em uma viagem para a casa de sua irmã, Anna. Sobrevivendo por saques e furtos, nota-se que a situação econômica daquela família é tão frágil quanto à relação entre pai e filho. Ao perceberem que há a chance de existir um lar para seu garoto, Alain começa a trabalhar como segurança de uma boate.

Em um de seus primeiros dias, o jovem aparta uma briga e acaba conhecendo Stephanie, que, agredida, é levada para casa por ele. Assim, descobrindo que sua profissão é a de treinadora de baleias no aquário da ilha. A relação, porém, não encontra força neste momento do filme, mas pode ser vista como uma primeira impressão seca e plana, definição que ganhará força em cenas seguintes da obra, como a terra que salta nas lutas de rua, ou nos pedaços de carne que flutuam na piscina.

O desastre que pauta a história logo acontece: em um dia comum no aquário, um dos animais foge do controle, causando, assim, um acidente horrível no local da apresentação, fazendo com que Stephanie caísse desmaiada no tanque e tivesse suas pernas comidas por uma de suas queridas baleias (a cena, entretanto, não é carregada de puro realismo, pois está implícita de forma arrebatadora e subjetiva dentro do contexto cinematográfico). Vale ressaltar como tudo é, tecnicamente, tão bem realizado. A falta do joelho para baixo das pernas de Cottilard é extremamente real, inclusive em sua atuação.

Volto a analisar as relações deste filme, porque neste instante da obra, o pós-acidente, encontra-se as provas de como o diretor nos leva a calcular o nível de afetividade que Stephanie possui pelas pessoas que conhece. Enquanto era tratada no hospital, seus familiares aparecem somente pelo fundo, totalmente desfocados, ao mesmo tempo em que sua colega de trabalho recebe o zoom do diretor e o olhar de aprovação da maravilhosa protagonista. Seus momentos de dor, depressão e emancipação do trauma são os momentos em que a protagonista está mais bela. Aquela garota da balada com vestido curto e pernas desfilando aparenta uma falsidade forçada muito menos honesta do que sua nudez desmembrada nadando em mar aberto.

Logo após voltar a morar sozinha, Stephanie decide, por motivos até mesmo mal contados, contatar Alain, o homem tipicamente homem, o tipo de homem que não diferencia o sexo que uma mulher com pernas pode oferecer de uma mulher sem pernas (a reação deveria ser considerada comum, mas afirmo que o preconceito de nossa sociedade acaba dando a Alain uma qualidade única).

Os dois iniciam uma relação de dependência curiosamente forte. Da mesma forma que Stephanie somente se sente bem quando é levada à praia por Alain, o lutador de rua começa a gostar de sua presença nas lutas, ou fazendo companhia a ela nas tardes ensolaradas do norte da França. Pode-se notar que procurar o segurança com quem mal trocou uma conversa séria possa ser respondida pela procura da falta de pena no olhar do ignorante (Que mal alguém cru pode me fazer? Há compaixão neste ser das cavernas?). Alain, no entanto, sente utilidade na medida certa dentro de si, o bruto e seu auxílio formal, sem abusos.

O tópico da afetividade explorado pelo diretor fica claro quando, de forma um pouco clichê, ao passo de perder uma luta (com muito sangue, terra suja e, até mesmo, língua presa), Alain encontra o rosto de Stephanie para retomar seus sentidos e vencer a batalha de músculos. Talvez essa seja a síntese do filme, duas pessoas abaladas física e emocionalmente que encontram um no outro a força necessária para o avanço de suas vidas.

Ferrugem e Osso tem em seu ato final a prova mais forte dessa complexa relação de pessoas simples. Quando a tragédia volta a pautar esta obra, seu personagem masculino principal, o cara dos músculos, das poucas palavras e do pensamento direto, enfim quebra (e não derrete como Nicholas Sparks adoraria colocar) como um lago congelado para concluir que sua subjetividade talvez seja maior que bíceps.


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