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Crítica – Inverno de Sangue em Veneza

O macabro confronto entre ceticismo e crença.

Por Rafael Lopes

Uma introdução sombria, que deixa a questão que perdura até a conclusão do filme: os limites do real e do sobrenatural, até onde podem chegar? John (Donald Sutherland) e Laura (Julie Christie) estão em casa, cada um a seus afazeres e seus filhos, Christine e Johnny, brincam do lado de fora. Uma queda de bicicleta, uma bolinha jogada na água, uma mancha vermelha na foto, uma criança afogada. O mais marcante – e assustador – da cena é o fato de o filme mesclar num mesmo espaço de tempo dois sentimentos. Do lado do pai, que socorre a filha, o desespero angustiante e do lado da esposa, ainda sem saber o que aconteceu, uma naturalidade que para quem está de fora, é desesperador. O contraste é fatal, o publico já está pronto para o que der e vier ao longo do filme.

O casal parece ter superado o trauma, mas suas vidas mudam quando Julie conhece duas senhoras, irmãs, uma delas cega, mas que enxerga muito bem o que se passa do outro lado, dizendo a ela ter visto a pequena Christine entre eles, feliz. Ela começa a ter mais interesse sobre o outro lado, tenta algum contato com a filha perdida, é instinto materno, é o ser humano. Mas ao mesmo tempo em que se pode liberar essas características, é na pessoa de John que o filme acerta o foco e desenvolve sua trama. John é arquiteto, descrente e cético, e que de maneira segura, diz com todas as letras que sua filha está morta e ponto final, não há mais nada. John, segundo a vidente cega, possui o dom de prever o futuro, mas ele não sabe e sequer tem a preocupação de saber.

Mais um contraste dentro do filme e que é utilizado para castigar o protagonista de uma maneire severa. Na Veneza que sofre com um assassino cruel e que ninguém tem suspeita de quem seja, John se vê no meio de uma batalha entre razão e emoção, que o faz duvidar, que convida o espectador a participar desse doloroso calvário. Ele está ameaçado de morte, mas seria isso um acaso do destino ou simplesmente um aviso certeiro do lado dos mortos? Fica a duvida na primorosa cena da igreja e na espetacular sequencia final.

A confusão é o artifício usado pelo diretor Nicolas Roeg para nos inserir numa trama inteligente e macabra. Brincando com nossos sentidos, quando transpõe imagens, sons, tudo com o intuito de despertar o interesse levando em consideração o carro chefe da trama, essa briga entre realidade e sobrenatural. É dessa forma que o filme exercita uma característica do horror italiano, tornando possível elementos que historicamente são sempre aliados a contos de ficção ou fantasia serem inseridos num nível absurdo de simbiose com nossa realidade. O mais interessante é o filme não se prender a aparições e tampouco momentos afetados com o intuito de ser chocante com elementos fantásticos, mas sim, ao sugerir tudo isso, o filme não se compromete ao depender desses fatores para seguir com sua história.

O maior medo é o medo do ser humano, e é com esse pensamento que o filme desenvolve tudo relacionando com o íntimo de suas personagens, deixando a cargo deles e do publico julgar se o que esta acontecendo é obra de uma entidade de outro lugar ou simplesmente do destino a qual estamos todos ligados. Dessa maneira, é muito mais certo extrair sustos, tensão, pânico e o medo, dessas características que deixam o filme alheio a tanta fantasia. Os pés no chão são fundamentais para a construção do clima e da narrativa. E como são bem construídos.

É então que o filme, preparando o terreno de maneira soberba, explorando o psicológico, expondo dores e fraquezas, literalmente expondo seus personagens a uma tortura silenciosa e continua, possibilita o encontro de tudo isso, colocando fé, realidade, sobrenatural, tudo num choque que explode na tela de uma maneira surpreendente. Essa surpresa é só a cereja desse delicioso bolo. Nicolas Roeg em sua direção segura e pesada nos põe em meio a tudo isso, causando dúvidas e desesperadores momentos afim de questionar e explorar esses dois lados que sempre fascinaram e intrigaram do mais crentes aos mais céticos.

É um filme aparentemente simples, mas rico em qualidades, que o tornam um dos exemplares da frutífera década de 70 para o gênero, se destacando com um exemplar refinado de suspense psicológico com todo aquele charme que dá ao espectador a boa e velha sensação de pensar duas vezes em olhar para os lados quando tudo estiver escuro.

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