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Crítica – A Noite dos Mortos Vivos

 

Por Rafael Lopes

Não são poucos os motivos que fazem de A Noite dos Mortos Vivos ser considerado por muitos como uma grande obra prima. É um daqueles filmes que não se pode observar apenas unilateralmente – nesse caso como um filme de terror ou de zumbis – mas sim, como em todo grande filme: por todos os seus lados. O filme além de inaugurar o estilo apocalipse zumbi, também serve como o desenho de um perfil caótico que se instalou na sociedade como um todo. A histeria é o grande foco do filme, quando levam o horror – nesse caso os famintos zumbis – de encontro a um mosaico de sobreviventes que antes de tudo, tem que aprender a se tolerar.

A família atordoada, o casal jovem e apaixonado, a menina traumatizada e um líder não muito comum, principalmente para a década de 60: um negro. George Romero junta todos esses tipos e consegue desenvolver ali tudo o que quer, sem precisar diretamente relacionar com o fim do mundo. É como se a casa fosse o mundo, aquelas pessoas os habitantes e os zumbis o catalisador de toda essa situação. Tanto que com tantos nervos a flor da pele, é meio complicado instaurar um clima no mínimo pacífico. E é o que tínhamos naquela época. Segregação racial nos EUA, perseguição política, domínio ideológico e a Guerra Fria, atacada diretamente onde o cinema clássico mais cutucou: corrida espacial.

Segundo o filme, o frustrado retorno de uma sonda vinda de Vênus expôs o mundo à um nível incontrolável de radiação, sendo esse um suposto motivo para o surgimento de tantas monstruosas criaturas. Levantando essa questão, o que fica no ar é até onde as autoridades militares iriam sem nem ao menos se preocuparem com a população, e sim com a soberania de sua ideologia apenas. E é daí que Romero vai tecendo em seu filme uma cadeia de situações que põem à prova os personagens como metáforas de pessoas comuns expostas a esse perigo.

Dentro da casa não há uma estável organização entre eles, e de maneira quase antropológica, Romero situa muito bem sua produção naquela conjuntura social e politica que o mundo passava e transforma esse estudo em pano de fundo para o que viria a ser seu passaporte para a cultura mundial. Considerado subversivo e repudiado na época de seu lançamento pelas conservadoras distribuidoras, creio que o filme sobreviveu ao tempo muito mais pelo seu teor de crítica – repetido por Romero em outros filmes de zumbis – do que propriamente pelo horror, que nesse caso mais especificamente, é bem melhor trabalhado.

Talvez as limitações técnicas, uma vez que o filme tinha um micro orçamento, tenha ajudado os realizadores a encontrar no que tinham a criatividade necessária pra desenrolar o projeto. Poucas locações, Romero transformou em tensão e claustrofobia; a fotografia em preto e branco deu um charme e um tom especial à maquiagem dos zumbis e ele pode brincar melhor com sombras e os membros e entranhas que seus zumbis comem; atores desconhecidos e por isso ótimos, uma vez que é muito mais fácil associar a realidade com rostos menos conhecidos, e até nisso Romero consegue montar um clima desesperador em cada rosto, em cada close fechado, enfim, a todo instante, o filme vai sugerindo essa atmosfera.

Fazendo a técnica dançar conforme a música que o diretor quer (ou a necessidade da equipe), seu filme recheado de sutilezas e críticas a cada diálogo vai caminhando perfeitamente, e ao mesmo tempo que entretém, oferece essa reflexão de histeria social e de caos. E o filme que se observado superficialmente, é apenas um filme de terror com zumbis, acaba saindo na verdade o filme de terror com zumbis. É falado sobre religião, política, racismo e por aí vai. Nada de se limitar apenas à tensão que fica imperando dentro da casa, mas sim, procurar explorar todos os limites do medo através de uma  análise metafórica do mundo naqueles dias. Os minutos iniciais, com a primeira perseguição entre um zumbi e uma moça, sendo concluído com um close no rosto de uma mulher morta beira a perfeição no que diz respeito a construção de um clima de medo e susto. E isso não fica só preso a esse momento.

E o filme vai em seus pouco mais de 90 minutos de duração, dissertando de maneira maravilhosa sobre o medo. E isso não fica preso apenas na ideia de zumbis dominarem o planeta, até porque de longe, não é o motivo do medo que Romero conseguiu causar dentro do filme, mas sim, ao medo que pode surgir do conflito direto entre pessoas, entre seres humanos, onde é quase impossível prever o que pode surgir. É filho matando pai, é homem matando homem, é o fim dos tempos, e o decomposto estado de zumbi é o melhor estado para ficar.

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