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Crítica – Deixa Ela Entrar

Por Rafael Lopes

Deixe a pessoa certa entrar
Deixe os velhos sonhos morrerem
Deixe as pessoas erradas irem embora
Elas não podem
Elas não podem
Elas não enxergam o que você quer que elas enxerguem.

Morrissey – Let The Right One Slip in

A letra de Morrissey inspirou o título de um filme intrigante. Deixa Ela Entrar não consigo ver como um suspense ou terror, mas como uma história de amizade e lealdade, com vampiros. Há sangue? Há, há violência? Há. Porém, justificada, não gratuita. Diferente dos vampiros de Stephenie Meyer, aqui eles definitivamente são romantizados, ganham uma vida mais humana, e não distorce seu mito.

Um roteiro rico em sentimento, não se embasa covardemente em cenas chocantes mas sim numa relação construída por duas pessoas, de mesma idade e com problemas parecidos. Seus atos são mais como reflexo da situação em que vivem. Oskar (Kare Hedebrant) é um garoto que sofre com quase todos os problemas que uma criança deslocada poderia sofrer. Bulling na escola, pais separados e pouca atenção deles, e de maneira crescente, nasce nele uma vontade de matar, sentir como é ver alguém que odeia estar morrendo. Vai nascendo ali um ódio beirando o descontrole.

No outro lado, acaba de chegar a nova moradora, Eli (Lina Leandersson) e seu protetor. Eles estão cercados de mistérios, mistérios esses um tanto quanto macabros. Ele serve a ela, mas não por obrigação, mas sim por amor, e ao que tudo indica parece estar ali há bastante tempo. Eli sofre de um problema de aceitação ainda mais cruel do que Oskar: ela não é uma garota qualquer. Ela precisa de sangue para viver, e no seu caso, matar é uma questão de sobrevivência, instinto.

Suas vidas se encontram e logo surge ali uma amizade, que vira amor. Começam os contrastes com auto descobertas e algo que os une separando-os de todas as dificuldades que os cercam. Tanto que, cada um torna-se essencial para resolver o problema do outro, e é a partir daí que o filme se desenvolve. A relação dos dois dentro de suas dificuldades, problemas e uma explosão de sentimentos que os envolve e os faz seguir juntos.

Claro que no meio do caminho, crimes e mistérios vão rodear, mas nada que possa separá-los ou quebrar sua lealdade. Nisso o filme vai destrinchando assuntos que incomodam, e com cenas que trazem algum incomodo, mas conduzidos com uma naturalidade e sinceridade que quebram qualquer tabu. A vampira ganha ares realmente humanos, sua melancolia e tristeza tocam realmente, e o menino começa a se descobrir como pessoa e a enfrentar os seus problemas.

Os momentos que os dois dividem são de uma beleza única. Eles na cama, eles se abraçando, se protegendo de tudo o que os aflige, juntos. Há poesia em muitos momentos do filme e isso o torna ainda mais fascinante. Talvez se for assistir como um terror convencional, com sustos e sangue, possa se decepcionar, mas é só os dois ocuparem a tela e tudo começa a ganhar outros ares. O casamento entre um ser fantástico e o mundo real é perfeito.

Diferente da “livre recriação das criaturas fantásticas”, o roteiro respeita o mito por trás dos vampiros (com direito a uma cena incrível, onde uma nova vampira explode com a luz do sol, e não brilha) e ainda toca e temas sérios como homossexualidade, solidão e rejeição – onde consegue mais sucesso. A direção bastante competente abre mão dos detalhes chocantes e se arrisca em criar momentos onde a tensão casa com o estilo de montar a cena. A violência é usada de uma maneira que só vai contribuir para o desenvolvimento do filme e de quebra servir como motor para tratar dos polemicos temas os quais se propõe a debater.

E numa sucessão de acertos e riqueza em detalhes e temas que valem a pena ser tratados, questões levantadas com sinceridade e realismo – mesmo com vampiros na trama – uma fotografia linda e atuações firmes e exemplares. Deixa Ela Entrar é um filme maravilhoso, pequena obra prima do gênero.

Imperdível.

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