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Crítica – Interlúdio

Interlúdio (Alfred Hitchcock, 1946)

Um brilhante suspense do mestre

Por Rafael Lopes

É muito mais interessante observar Interúdio como dois filmes que se desenvolvem mutuamente. Ambos compartilham dos mesmos atores, do mesmo diretor, compartilham tudo, mas diferem quanto ao gênero que seguem. No primeiro, um agente federal (Cary Grant) chantageia a filha (Ingrid Bergman) de um nazista fujão e devidamente condenado pela justiça, a vir ao Rio de Janeiro – historicamente conhecido por hospedar esses criminosos – para que pudesse espiar as tramoias de outros nazistas que sobraram. Sob pressão ela vem e começa a se envolver com os nazistas que lá residem, só que manter o disfarce será um processo delicado e mortal.

Do outro lado, algo completamente diferente de um suspense policial: um romance. O mesmo agente federal acaba se apaixonando perdidamente pela mulher que ele chantageou. O pior é que o sentimento torna-se recíproco. O amor acidental torna-se então duvidoso, quando ele descobre que ela e seu alvo já se conheciam, e o homem a ser espionado ainda cai de amores por ela. Os dois, em meio a tempestade causada por isso, descobrem que seus sentimentos são verdadeiros, e então, o amor agora se configura como proibido, agravando mais a situação, uma vez que o homem a ser espionado a pede em casamento, cego de amores.

Alfred Hitchcock na sua fase em Hollywood vem muito bem encaminhado. Um Oscar de Melhor Filme – conquistado com Rebecca – A Mulher Inesquecível sendo esse o único na filmografia do diretor – e sempre com bons roteiros em mãos, Interlúdio pode não se estar ali, entre suas maiores obras primas, mas é facilmente considerado como um dos melhores dessa sua primeira fase no cinema americano. Foi onde ele começou a aperfeiçoar ainda mais as características que o tornariam o gênio conhecido de hoje.

Primeiramente há de se notar o talento e a sensibilidade de conduzir o filme. A dificuldade principal reside no fato de que como são duas histórias que precisam se unir num só, poderia acontecer de o diretor acabar por privilegiar apenas uma delas. Uma vez que essa indefinição ocorra, o filme se compromete, fazendo com que um dos lados a ser desenvolvido seja inserido de qualquer jeito na trama. Hitchcock tira isso de letra. A visão de que uma parte da história deve obrigatoriamente completar a outra é que toma conta da condução do filme. Explora bem o suspense quando necessário e logo depois põe o romance como tempero da situação toda, e assim por diante.

No caso do suspense policial, ele não economiza em detalhar com muito capricho toda a tensão que vai crescendo ao longo do filme. Utilizando sua consagrada perspectiva em primeira pessoa, o diretor imprime uma sufocante sequencia de acontecimentos que ao longo do filme, por meio de elementos simples – que vão desde filmar garrafas de champanhe a um simples trocar de uma chave entre mãos – vão se transformando em cenas onde o trabalho do suspense é nada menos que magistral. Já no caso do romance, Hitchcock ousa ainda mais, explorando algo que ajudou a consagrá-lo.

Em muitas cenas, a tensão sexual sai praticamente pelos poros dos atores, num domínio perfeito de diálogos com muito duplo sentido, dando um aprofundamento ainda mais humano ao caso de amor dos protagonistas. Mas ainda que essa seja uma das características mais gritantes dessa parte, acontece que é perceptível uma falta de pulso em desenvolver o que há entre eles, ficando algo beirando o estereótipo. O casal é bonito em cena, mas não passa a mesma força que o casal protagonista de Um Corpo que Cai por exemplo. É quase um tom novelístico, que incomoda um pouco, mas não compromete.

Com os dois lados da trama bem construídos e mutuamente associados, só resta ao diretor dar a sua assinatura, preparando todo o terreno e criando cenas tensas e memoráveis – como a da escadaria ao final, simplesmente perfeita. E tem ainda imagens belas do Rio de Janeiro nos anos 40, Ingrid Bergman valorizada pela fotografia e pelos figurinos maravilhosos, Cary Grant esbanjando macheza e muitos outros detalhes que tornam esse filme especial. Não fosse a derrapada na hora de fazer valer o amor entre o casal, seria perfeito em tudo. Mas é Hitchcock, e ainda assim, ele consegue um filme independente desses detalhes de fato ínfimos e nos segura presos a sua trama até o fim.

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