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Crítica – O Segredo de Brokeback Mountain

Por Vítor Nery

Verão de 1963. Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger), jovens à procura de serviço temporário, acabam sendo contratados por um fazendeiro para cuidar de um rebanho na montanha Brokeback. Enquanto Jack aspira à profissão de cowboy e trabalha no local pelo segundo ano seguido, Ennis é estreante e pretende se casar assim que retornar. Vivendo isolados por semanas, eles se tornam cada vez mais amigos e iniciam um relacionamento amoroso. Ao término do verão, cada um constrói o futuro separadamente, mas o período vivido ali irá marcá-los de forma inesperada.

Através do premiado roteiro adaptado, Brokeback Mountain nos transmite a capacidade do acaso de mudar o curso de nossas vidas. No longa, a carência financeira e a de independência se encarregaram de provocar a união dos protagonistas e, consequentemente, o início de um autoconhecimento determinante em suas respectivas trajetórias.

Os laços emocionais firmados entre Jack e Ennis são bastante críveis, pois há todo um cuidado de Ang Lee para que o espectador perceba a intensidade e a variedade dos sentimentos. Não se trata apenas de paixão, há o companheirismo mútuo, o bem-querer e a saudade, retratada num posterior reencontro entre os jovens.

Sem a tradicional abordagem densa dentro da temática, a história não mantém o foco no ambiente repressor e religioso, apesar de usar referências. O destaque aqui é a desmistificação da fragilidade dos homossexuais: eles podem ser valentões e machistas, bem como ávidos chefes de família.

Outra parte que reforça a credibilidade de Brokeback Mountain está nos enquadramentos fotográficos, transformando a paisagem campestre em um ambiente aconchegante. Em conjunto, observa-se o incrível trabalho sonoro de Gustavo Santaolalla, cujos acordes de violão são cruciais no estabelecimento da calmaria da montanha – o reconhecimento veio com o Oscar de Melhor Trilha Original.

À medida que a trama se desenrola, nos questionamos: o que se reserva a um homem conservador que se descobre amando outro? Repulsa inicial, negação e tristeza são respostas cabíveis. Todo esse processo pode desencadear uma vida pautada em mentiras, ilusões, infelicidade e mágoas (a claustrofobia da casa de Ennis e as expressões da personagem de Michelle Williams dão suporte a isso). Assim, o longa reforça a ideia de orientação (e não opção) sexual de um indivíduo, pois não há quem escolha viver sofrendo.

Dando continuidade ao desbravamento das sutilezas, encontramos a procedência da afirmação “O Amor é uma força da natureza”: as reuniões de Jack e Ennis na tranquilidade de Brokeback sugerem uma releitura do “fugere urbem” árcade. A fuga do mundano é aqui concretizada tanto pelo cenário natural quanto pela vivência dos personagens por Gyllenhaal e Ledger, revelando sua extrema versatilidade e entrosamento.

Responsável pela reunião desses talentos e por manter a temática atual representada com perspicácia, Ang Lee faz por merecer a recompensa de seu trabalho com a estatueta de Melhor Diretor no Oscar 2006. E mesmo com o excesso de crueza em alguns momentos do filme, faz-se necessário concordar com o comentário da revista Istoé: assistir a O Segredo de Brockeback Mountain é uma experiência indispensável.

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