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Crítica – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

A verdadeira comédia romântica definitiva

por Rafael Lopes

É perigoso encontrar uma definição para Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. O filme transgride o próprio cinema e até mesmo Woody Allen, nesse que é seu filme “divisor de águas”. Isso se deve ao fato de o filme estar ali, entre as comédias e os filmes mais sérios que marcaram a carreira dele no cinema. Esse filme em especial possui toda uma estrutura inventiva e original que rompe com o cinema convencional e desenvolve de uma forma marcante e irreverente uma história de amor. O ponto de partida do filme é a necessidade de existir uma vida ligada a outra pessoa. No impressionante monólogo que abre o filme, Woody (que no filme interpreta o comediante Alvy) diz que terminou com ela, e que isso não sai de sua cabeça.

O filme todo se propõe a analisar sob diferentes aspectos essa questão da necessidade de se dividir um pouco da vida com outra pessoa. Entre idas e vindas nos contos amorosos de Alvy, conhecemos Annie Hall (Diane Keaton maravilhosa), a pessoa que deixa o mundo do comediante de pernas pro ar, literalmente. O contraste que consegue estabelecer entre o casal de quando se conheceram para o casal que pontua o clímax do filme é perfeito. Os pontos paralelos e a necessária – e muito bem utilizada – busca pelo passado de ambos para embasar os fatos de um tempo mais presente conseguem dar esse tom sem fazer que o filme se perca em apenas um lado. O mesmo interesse que fica quando eles vivem uma linda história de amor se mantém quando começam a enfrentar seus problemas. E é onde o roteiro e o olhar agudo de Allen centram fogo.

O diretor, num dos roteiros mais brilhantes não apenas de sua carreira, mas do cinema, consegue adentrar nas personagens flertando sempre com o psicológico. A ideia de fazer a história fluir por meio das memórias de Alvy é simplesmente genial pois o diretor ganha passe livre por todos os acontecimentos importantes para fazer funcionar o que quer dissertar. A narrativa do filme não obedece a uma ordem cronológica convencional, ela dá voltas e voltas, só que nunca cai no lugar comum ou fica redundante. A grande marca de Woody Allen é fazer essa aparente falta de ordem funcionar, evoluir, e com isso, monta um conto de amor soberbo, e que talvez o cinema dificilmente consiga igualar.

Sob inúmeras referencias, pontuadas com gosto durante o filme, Allen se embasa em arte e cultura mundial para muito bem personificar seu protagonista, que entre neuras e paranoias, se constitui um peculiar personagem. A riqueza e grandeza que esse homem consegue desenvolver são impressionantes, mas fica também uma duvida no ar. Como estamos assistindo a todos os acontecimentos sob a visão de alguém que diretamente sofreu as consequências das situações descritas, não seria tudo coisa da cabeça de Alvy? É tudo contado sob a ótica do mundo de Alvy, e é onde Woody Allen, o cara da visão, vai flertando com a psicanálise, dando mostras de que ele pode estar certo ou errado acerca de tudo o que pensa sobre os relacionamentos.

Até porque é complicado acreditar que uma relação tão boa e feliz tenha terminado de maneira tão inesperada. É disso que o filme fala. Até onde as relações aguentam? Num primeiro momento, Alvy e Annie vivem um conto de fadas, até que num determinado momento, quando tudo foi acumulado e é despejado de uma vez, o encanto termina e logo se percebe a confusão que existir ao lado de alguém, onde coisas pequenas como dividir o mesmo espaço no mesmo tempo pode ser uma tarefa desafiadora ou agradável, dependendo da situação. As paranoias de um e a passividade da outra irão coexistir até quando?

O fato de as pessoas serem passivas e idiotas quando o assunto é relacionamento, essa procura por uma resposta que defina a necessidade de uma pessoa precisar de outra para ser feliz, são tão bem trabalhadas que o filme vai acontecendo e sempre trazendo uma ideia ou um conceito que se mantém autentico, engraçado e inteligente conforme o tempo passa. Woody Allen inspiradíssimo cria momentos impagáveis e realistas mesmo sendo colocada como metáfora, a melhor delas talvez, quando Annie é separada em corpo e mente. É isso que torna Woody Allen o grande gênio que é: consegue conversar com o público sem precisar ser rebuscado ou se prolongar demais, para parecer diferenciado ou culto. E ele passa tudo isso em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

Aí fica até difícil definir bem Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. O que se sabe é que Woody Allen conseguiu dissertar muito bem sobre amor e essas coisas, sem precisar ser piegas nem clichê. Usando todo tipo de liberdade narrativa, inserindo o humor característico, do pastelão ao irônico – todos inteligentíssimos – e conseguindo com isso criar um belo conto de amor sem necessariamente fazer um filme romântico. Mas também não da pra configurar como comédia pura e simplesmente, por isso é complicado encontrar um definição. O melhor a fazer é apreciar essa obra prima, que assim como o vinho, quanto mais envelhece, melhor fica.

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