,


Crítica – Laranja Mecânica

 

 

“Well, well, well, Druges… Qual vai ser o programa hoje?

Que tal um pouco da velha Ultraviolência?

Por Rafael Lopes

Sádico, tenso, vibrante, espetacular, ousado, perfeito! Todos os adjetivos possíveis são bem empregados em algo tão singular como Laranja Mecânica, filme baseado no ótimo livro de Anthony Burgess, dirigido por ninguém menos que Stanley Kubrick em seu auge criativo. Alex DeLarge não é la um ótimo exemplo a ser seguido. O moleque sai a noite com os amigos pra praticar delitos, se diverte vendo os outros serem espancados, humilhados e volta pra casa para curtir todo seu conforto escutando Beethoven. Com uma mentalidade forte, o líder do grupo de arruaceiros é também o mais sádico. Gosta de pegar mulher quando quer, bater em mendigo, estuprar e roubar. Nem mesmo os membros de sua gangue escapam – talvez por se sentir líder absoluto daquilo, não perdoa nem mesmo uma brincadeirinha. Isso leva seus “comandados” a uma espécie de rebelião, pondo Alex numa arapuca. Preso por assassinato, ele decide ser cobaia do “Método Ludovico“, que consiste em fazer o delinquente deixar de ser delinquente.

O problema é que fora da prisão, as coisas parecem conspirar contra ele. Todos que ele de alguma forma fez sofrer, farão o mesmo com ele. Destino ingrato. Alex se torna vítima de seus próprios atos e acaba pagando por isso. São pouco mais de 2 horas de um filme denso, estilizado e intenso em sentimento, que arrasa em tudo, desde o menor detalhe, até a violência contextualizada que o filme traz. Kubrick não deixa nada passar. Cada ponto do filme é uma crítica ao mundo moderno, seus defeitos e consequências, quase um presságio do que temos hoje. Juventude rebelde sem causa, violência em todos os pontos, evolução nas construções e tudo mais, mas um povo ainda primitivo, que não aprendeu a andar com as próprias pernas.  Os diálogos carregados de sutilezas ferrenhas a isso é o que há de mais delicioso no filme. Até as gírias usadas por Alex e seus amigos, soam com esse tom. As cores vibrantes (marca do Kubrick), com cenários extravagantes, passam a sensação de futuro próximo, o que torna o filme ainda mais autentico e verdadeiro – e nem um pouco datado, note que o filme é de 1971.

A forma como Kubrick conduz seu filme é primorosa e fabulosa. Abrindo o filme com muita violência, ele não economiza na pancadaria gratuita, no sexo, enfim, o máximo que puder fazer para chocar o espectador, e isso sem perder a mão de fazer parecer a coisa mais normal do mundo. Com isso ele  nos faz criar certo desprezo pelo personagem principal. Só que depois do tratamento, Alex acaba de alguma forma ganhando a simpatia do publico, passa de vilão a mocinho quase que instantaneamente. Essa mudança radical, da água pro vinho, mostra que ele não é o único sádico/frio/violento que existe. Todos são, e não há “Método Ludovico” no mundo capaz de mudar isso. Enquanto tudo é desenvolvido com maestria, mergulhamos cada vez mais naquele mundo imaginário que não está tão longe e tampouco diferente do nosso. Todas as coisas mostradas por Kubrick no filme são planejadas com muito cuidado, são colocadas em cada momento do filme com muita paciência, e o resultado é uma explosão de imagens vibrantes e certeiras, repletas de finas sutilezas que tornam cada assistida uma redescoberta.

Cada movimento de câmera, cada quadro é trabalhado para passar algum sentimento, como por exemplo, perversidade na cena em que Alex acidentalmente mata a “louca dos gatos”. Outro exemplo é quando sentimos a inocência dele quando está cantando “I’m Singing in The Rain” no banho (aparentemente alheio ao momento em que canta essa música em outra). Outra sacada genial, é que o filme não expõe a violência de maneira direta, e sim de um modo mais subjetivo, sem necessariamente mostrar sangue, sem mostrar membros quebrados, sem apelar pra essas coisas tão comuns. Tudo é mostrado com o mínimo de detalhes, e por isso acaba sendo tão chocante, por ser tão envolvente e trabalhar realmente com os nervos. Voltando o exemplo do assassinato, em que Kubrick em momento algum precisa mostrar o rosto da mulher dilacerado, ele corta para uma montagem angustiante de bocas abrindo e daí tira o que precisa para enriquecer a cena. E se notarem nem há sangue.

Outra coisa bacana é a união entre belo e feio, algo bem constante no filme como na cena em que Alex e seus amigos vão brigar com a gangue do Billy Boy, ela começa com uma imagem bela (o alto de um palco de teatro) e caminha para algo nem tão belo assim (uma moça prestes a ser estuprada). Esse efeito é mais sentido com a trilha, cheia de Beethoven como trilha sonora da violência. Os figurinos são outro arraso, sendo eles exagerados, coloridos. E no que diz respeito às atuações, é de conhecimento geral que Kubrick tem a fama de ser um brilhante diretor de atores, sempre os espremendo para que dessem o máximo de si, e quem ganha destaque é o jovem Malcolm McDowell, que está impecável. Com olhos azuis e sorriso jovial, o cara caiu como luva no protagonista. É até complicado imaginar outro fazendo o personagem. Seu momento mais brilhante dentro do filme é a clássica cena de estupro, onde ele dilacera o espectador com tanta brutalidade em sua personificação de lobo em pele de cordeiro. Simplesmente perfeito.

Reza a lenda que o texto do filme era simplesmente o livro, mas o filme tem um final um pouco diferente. Enquanto no fim do livro se evidencia uma grande metáfora sobre a passagem da adolescência para a fase adulta, já que ele começa com 14 anos e termina com 18, e sendo esse o período onde ele é consertado pelo sistema, deixando de ser a anarquia em pessoa para ser apenas mais um careta, a versão do Kubrick ganha ares mais politizados, o que em nada compromete. É até de certa forma melhor, porque termina com uma conclusão dele. O problema foi que na época do lançamento do filme, levaram muito a sério aquilo tudo, e a banalização foi geral.

Casos de gangues aterrorizando e agindo como as do filme arrasaram a Inglaterra, obrigando Kubrick a tirar o filme de circulação, e que por conta desse ar de maldito acabou sendo proibido. Por conta disso, no circuito pirata, muitos jovens assistiram e entenderam as mensagens. Entre eles estavam Sam Mendes (de Beleza Americana), Tony Kaye (de A Outra História Americana), John Singleton (o mais jovem diretor indicado ao OSCAR, com Os Donos da Rua), sem contar os outros tantos influenciados pela magia e euforia causada por Alex DeLarge, seus Druges e um dos diretores mais fantásticos de todos os tempos. É tanto que com o tempo, só ficou claro que Laranja Mecânica é não somente obrigatório, mas também um dos mais importantes filmes da história do cinema.

Comments

Leave a Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments