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Crítica – 2 Coelhos

A estreia com pé direito de Afonso Poyart

Por Rafael Lopes

Um acidente; um deputado corrupto; um bandidão que odeia que xinguem sua mãe; um bandido pé rapado; um advogado safado e sua esposa; um professor universitário e 2 milhões de dólares. Tudo isso na cabeça de Edgar (Fernando Alves Pinto) é jogado no liquidificador e vira um bem bolado plano para tirar de circulação um pedaço da alta cúpula do crime organizado na cidade de São Paulo. Só que nada é o que parece, tudo deve ser assimilado com mais calma, e a medida que 2 Coelhos avança, tudo vira uma surpresa melhor que a outra.

Longa de estreia do publicitário Afonso Poyart, 2 Coelhos foi um dos melhores filmes nacionais de 2012. Assim como o protagonista de sua mirabolante trama, Poyart com muito bom gosto adiciona todos os elementos possíveis de cinema pop, dos quadrinhos e dos vídeo games e liquidifica tudo para que se torne um saboroso passatempo de 108 minutos muito bem movimentado e envolvente. O trabalho, arriscado, principalmente em termos comerciais – uma vez que disputa diretamente com a nata das pipocas hollywoodianas – foi rodado em 2009. Vai ver tanta demora assim acabou dando uma melhorada sem perder a essência do material, já que o filme sequer é datado e agrada muito bem ao publico.

Poyart não esconde o medo de errar e de cara dirige um filme com uma narrativa mais delicada, onde é preciso ser milimetricamente cauteloso e cirurgico no que mostrar e no que fazer. Tendo isso em mente, o filme é muito bem dividido entre desenvolver personagens (grande acerto, fazendo com que tudo funcione de maneira muito eficiente, sem perder graça nem ritmo), desenvolver a trama (note como tudo se amarra e não se embola, é só abrir os olhos) e fazer tudo isso contrastar com a ação sem que se perca nada do filme. O diretor demonstra segurança e consciência de que tem um material interessante na mão e com isso não sobra tempo nem pra bocejar, tão bom que o filme vai ficando.

E nem adianta achar que tudo no fim não chega a lugar algum. “Bem vindo ao meu plano”, diz Edgar ao fim da fita, e até isso, muita coisa aconteceu e tudo foi bem desenvolvido e amarrado para que não sobrasse lacunas gritantes ao fim. Uma coisa que fica claro, é o fato de que o cinema nacional pode sim competir com o filão americano, só faltava alguém botar pra fazer. José Padilha fez isso nos dois Tropa de Elite, trouxe toda a influencia da elite americana como Martin Scorsese e tiques de Brian de Palma por exemplo para as necessidades do cinema brasileiro, e funcionou muito bem. Criamos um grande símbolo, um herói pra nação e entretemos as massas fazendo os dois filmes virarem arrasa quarteirões num cinema que disputa, em termos de bilheteria, com Hollywood e seus implacáveis blockbusters. Quase um Davi contra Golias.

O mesmo acontece em 2 Coelhos. É um filme que trouxe muito do cinema de Guy Ritchie, por exemplo, com câmera lenta bem utilizada – finalmente dando ênfase a ação, como o cineasta inglês faz muito bem, diferente de um tal de Zack Snyder – edição que explode na tela e humor negro com violência estilizada, mostram que aqui também podemos fazer filmes de ação diferentes, bem longe de cair no velho lugar comum que se tornou favelas e policiais malvados. Enfim, uma grata surpresa, que vale muito ser conferida e apreciada. É o cinema brasileiro mostrando que pode alçar voos maiores, faz parte de seu plano.

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