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Na Natureza Selvagem (Sean Penn, 2007)

Por Vítor Nery

Baseado em uma história real que se passa na década de 1990, Na Natureza Selvagem narra a trajetória do recém-graduado Christopher McCandless, extremista que abandona a civilização em busca do contato com as belezas naturais. Tudo por levar em conta não só a inversão de valores do convívio social moderno, onde o materialismo se antepõe à espiritualidade, mas também a maldade humana, o julgamento e o controle.

Tal percepção de mundo, pelo idealista, está enraizada no âmbito familiar. A teatralidade dos conflitos conjugais do casal McCandless, fazendo os filhos de jurados, atuou de maneira gradual e decisiva no início da crise identitária de Chris, e, por consequência, na sua preferência pelo distanciamento.

Influenciado pelos espíritos inquietos de Byron, Tolstoi, Thoreau e Jack London, McCandless se rebatiza de Alexander Supertramp e passa a viver conforme os ideais dos referidos escritores. Seja aspirando à purificação espiritual ou à sobrevivência por meio exclusivo dos recursos naturais, o jovem faz da natureza – aqui, mais que um cenário – sua confidente, seu interlocutor.

No desenrolar da trama, o protagonista é levado a um ambiente pacífico de companheirismo – todas as pessoas que Alex conhece na estrada acrescentam muito à sua vida, bem como ele à delas. Essa reciprocidade é enfatizada pela montagem precisa do longa, uma vez que as brilhantes citações e os conselhos proferidos ao aventureiro se intercalam às repercussões destes em sua jornada.

Há tantas cenas memoráveis, na adaptação, que um ou outro detalhe pode passar despercebido por muitos, a exemplo da passagem em que Alex devora uma maçã, gostosamente, ao som de Rise. Enquanto a canção cita a efemeridade do tempo, o entusiasmado aventureiro aproveita a simplicidade dos momentos – tal qual o fizera (ou o faria) em seu convívio intimista com Jane, Tracy e Ron.

Dentre os muitos deleites da película, vale ressaltar tanto a belíssima trilha sonora de Eddie Vedder, que versifica as premissas e as finalidades da obra, como a inventividade de Sean Penn. O diretor consegue conferir tons de ficcionalidade ao enredo factual aliando a narração subjetiva e observadora da irmã de Chris a uma divisão do enredo que remete às etapas do desenvolvimento humano.

No capítulo “Adolescência”, por exemplo, se retrata a fase mais revolucionária de Alex, na qual ele expressa sua avidez para se perder na natureza, mas tem seu extremismo repreendido por Wayne, um amigo mais velho. É durante esta etapa, inclusive, que Supertramp tenta um retorno à cidade e se depara com um paradoxo: miséria e descaso às proximidades de grandes edificações e estabelecimentos de luxo. Em um destes últimos, o jovem identifica, em um membro esnobe da elite, o que ele próprio poderia ter se tornado se estivesse vivendo dentro dos padrões sociais da urbe.

Por outro lado, em “Idade Adulta”, Alexander é posto diante de obstáculos, iniciando um processo de amadurecimento necessário. Em uma das cenas, esse “despertar” fica a cargo de um patrulheiro. Ele agride o protagonista por flagrá-lo dentro de um trem de cargas no decorrer de uma carona clandestina.

A progressão da jornada de Supertramp tem seu ápice nas nuances catárticas, muito bem flagradas pela fotografia de Eric Gautier. Esta, por vezes, sobrepõe a exuberância das paisagens ao andarilho e, em certos momentos, se torna palco de um radicalismo precipitado por parte deste.

Por derradeiro, pitadas de sensatez se revelam imprescindíveis à vida. Contudo, é a emoção que nos faz vivenciar a história e nos guia durante a maior parte dela. O que Christopher McCandless disse precisava ser dito, e dentro de toda a gama de sensações, apenas uma prevalece. Em essência. Em natureza. A felicidade só é real quando compartilhada.

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