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Taxi Driver (Martin Scorsese, 1976)

A obra prima urbana de Martin Scorsese

Por Rafael Lopes

(pode conter alguns spoilers)

Se há um diretor no mundo que soube como ninguém captar as inquietações da sociedade, esse cara é Martin Scorsese. E em 1976, ele conseguiu traduzir todas as inquietações de uma sociedade que sofria uma ebulição. Primeiro as consequências da Guerra do Vietnã, a crise do petróleo, desemprego, ruas infestadas de prostituição, drogas, bandidos, cafetões, a corja da sociedade. E dentro desse universo, surge o afetado Travis Bickle. Travis sofre com uma insônia e, por isso, procura trabalhar o máximo possível e encontra emprego como taxista noturno. Seus olhos passam a presenciar toda noite um inferno na terra. A violência que corrompe as ruas de Nova York começam a fazer Travis criar um sentimento de ódio muito forte contra essas pessoas. Traços de sua personalidade, nos dão a impressão de um homem preconceituoso, um homem racista, um homem criado caráter foi formado a partir do que ele julga certo ou errado no mundo ao seu redor.

Então, acaba se apaixonando. Betsy passa a ocupar seus pensamentos e o que ele mais quer é se aproximar dela. Ela é como um refúgio para Travis, uma vez que bem apessoada, inteligente e de aparência correta, acaba conquistando o protagonista. Ela trabalhar na campanha do novo candidato à presidência, e até se interessa pelo peculiar homem, de poucas palavras e uma curiosidade que atiça a todos, a começar por seu olhar (curiosidade essa que nos fascina e nos faz querer entender o que se passa na cabeça dele). Ela é a chance que Travis queria para se ver livre dos problemas que as ruas criaram nele. Ela se encanta com o seu modo, se encanta com a sua simplicidade e aparente inocência, e chega a citar Kris Kristofferson (The Pilgrim, Chapter 33), definindo-o como uma contradição, e Travis é uma grande contradição. Mas é só eles saírem, e ela por julgamento, constrói uma imagem de Travis, que o põe como as mesmas pessoas sujas que tanto odeia, e isso o deixa ainda mais afetado e é onde começa realmente Taxi Driver.

E onde mora o contraste da personalidade de Travis? Ao mesmo tempo que ele quer “limpar as ruas”, ele tem a compaixão necessária para tirar uma prostituta de 12 anos das ruas e devolvê-la ao mundo bom, que ele ainda acredita existir. Mas é só voltar às ruas, que o pessimismo que o acompanha em anos de solidão, voltam a reinar em seus pensamentos. Compra armas pesadas e se prepara para o acerto final. Travis contra todo tipo de coisa ruim que exista. E nesse momento, não sabemos mais o que ele é, apenas sabemos que é isso que vai torná-lo uma pessoa mais satisfeita.

O clímax é de tirar o fôlego, primeiro “… you talkin’ to me?”, depois o cabelo moicano, símbolo de rebeldia e de soldados que se preparava para um combate. Podemos enxergar os dois em Travis. E lá vai ele, armado até os dentes, resolver pelo menos o que julga o grande mal das ruas. E Martin Scorsese desenha uma situação que representa não apenas uma cidade e suas mazelas, mas representa as pessoas.

O mês dos fatos: julho. Julho é o grande mês para os americanos, mês onde se comemora a independência, o dia dos pais e outras datas, mas para Travis, é também mês de aniversário de seu pai, casamento dos seus pais e o mês onde a panela de pressão que é a sua cabeça começa a chiar. Na primeira hora do filme, somos convidados a sentar no banco de passageiros de seu táxi e conhecemos várias pessoas que habitam os becos e as noites em Nova York. Desde os colegas de profissão à um homem traído que quer matar a esposa infiel (este homem é Martin Scorsese). E essa salada de personagens faz Travis encarar o mundo ao seu modo, fazendo crescer o ódio pela podridão que reina em todos os lugares. Detalhes nos instigam a traçar o porque daquilo tudo estar acontecendo, tais como a dificuldade de Travis em se relacionar, o desdém com que encara as coisas e o seu perfil psicológico, que é traçado a partir da solidão que o acompanhou durante toda a vida. E o mês de julho, que para os americanos é um mês festivo, para Travis é o mês onde ele quer e precisa fazer mudanças em seu meio.

Mas como crer ou ter certeza de que Travis está agindo corretamente? E é onde Scorsese acerta na hora de contar a sua história. O fato de ocultar sabiamente certos detalhes chave, fazem da experiência de assistir esse filme mais intensa do que se imagina. Primeiramente a solidão. Durante todo o filme ele se mostra um personagem marcado pela solidão. Só que em dado momento do filme, ele dá mostras de que já foi feliz um dia, e que desfrutou de boas companhias, mas por algum motivo abriu mão de tudo isso.

Logo no começo, sabemos que ele foi ex fuzileiro. Mas em momento nenhum isso é realmente comprovado, já que o tratamento que ele dá as armas é bastante diferente de alguém que realmente estivera no serviço militar um dia ou que tivesse participado de uma guerra um dia. Porque não pensar que isso pode ser uma personalidade criada por ele para apenas confortar a situação psicológica a que se encontrava, já que culpava o meio onde vive pela situação complicada que sua mente enfrentava? Travis é uma contradição.

”A saúde é apenas um estado de espírito”

A violência do filme é bastante crua e realista. Por mais que no fim, no massacre, a coisa seja um pouco mais atenuada, a violência do filme não se concentra apenas naquela cena em especial, mas durante quase todo o filme. Repare no olhar odioso de Travis ao que acontece ao seu redor, e como reage diante de tudo. É tão violento quanto o fim, já que mantém uma tensão pesada, um clima cruel durante quase todas as cenas. E isso se dá seja por diálogos, seja pela fotografia linda (e que ameniza a violência do fim, diminuindo o tom vermelho do sangue) seja pelos olhos de Travis, que assiste a degradação do mundo.

E Robert De Niro se entrega ao personagem. A personificação de Travis é uma das mais fortes e perfeitas do cinema. Seu sorriso falso, seu olhar odioso, seu falar discreto e perigoso, não se sabe se é herói, se é anti-herói, o que se sabe é que é uma contradição e ele arrasa a cada cena com sua contradição, criando um dos personagens mais fascinantes do cinema. Os coadjuvantes também tem seu momento. Harvey Keitel, Jodie Foster (lindinha e arrasando), Cybill Chepard e por aí vai. Cada um ganha seu momento de arrasar.

E Martin Scorsese, ainda jovem quando fez esse filme, dá mostras de seu talento, com um domínio monstruoso na hora de criar o clima de seu filme. Os diálogos são duais em alguns momentos, algumas cenas causam um humor involuntário, certamente para enxergar onde está o problema e fazer refletir sobre, quase criando uma paródia dos vícios urbanos. E o que dizer sobre o clímax do fim. A câmera passeando pelo palco do massacre e depois, transformando Travis num herói porque matou o chefe da máfia local. Entram nessa ironia, uma crítica sobre o poder da mídia que constrói seus heróis sem ao menos se dar conta dos fatos que realmente ocorreram.

Travis vira herói, mas como provar isso? E se tudo não for apenas os pensamentos de Travis antes de morrer ? A prova dessa ironia é quando Betsy entra no carro dele (e repare no humor dele e como está se relacionando) e então passa a admira-lo e não mais repudiar, como fazia ainda no começo, quando estavam se conhecendo. Esse final foi duramente criticado por alguns, mas é observar mais atentamente sua ironia sutil e perceber que o filme termina com a mesma carga de pessimismo com que começou. É um show de contradições conduzido com maestria por um dos maiores diretores do cinema, e personificado por um dos maiores atores da história.

Grande obra prima!

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