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Elena (Petra Costa, 2013)

 

 

Elena é a forma completa, o começo e o fim. Para entendermos a dor, é necessário que sua origem seja explicitada.

Por Rennan A. Julio 

Narrada por Petra Costa, a história do documentário baseia-se em como Elena Costa, sua irmã mais velha, buscou a realização do sonho de ser atriz, paralelamente, acompanhada por seus fantasmas internos. Por meio de arquivos pessoais e declarações das pessoas próximas de sua irmã, Petra compõe uma vontade compulsória por emoção, na qual muito do filme se perde.

Filha de pais engajados nas lutas sociais e criada em um núcleo cultural muito forte, Elena é jogada ao público como o fruto perfeito, como a garota que vai dar certo na vida. Assim, aparentam ser as reações de seus pais ou daqueles que estavam próximos dela. Protagonista desde pequena, gravando, atuando, escrevendo, nota-se uma profundidade muito rica naquela pessoa fadada ao espetáculo. Enquanto o filme se passa, Petra narra em off toda a relação estabelecida entre ela e sua irmã, 13 anos mais velha. Ao passar dos anos, a protagonista começa a aprofundar seus desejos, inclusive, indo para Nova Iorque investir em sua carreira. E nesse ato do documentário, quando as gravações de suas cartas (ela gostava de enviar à sua família fitas com os relatórios de sua experiência fora do país) começam a narrar seu periódico descontentamento com a vida que estava levando.

Após algum tempo, como uma medida de sua mãe desesperada, Elena retorna ao Brasil para uma tentativa de reconciliação consigo mesma. A garota que sorria, pulava e dançava com a Lua tornara-se filha da derrota, a baixa estima havia vencido e agora só restava o seu fim. O suicídio, por si só um grande clímax, ganha uma exagerada cobertura silenciosa, digna de uma tentativa de nos fazer chorar. Às vezes tão claramente forçadas, as cenas com sentimentalismo próprio ganham o tom ficcional desnecessário, alimentando a diminuição da relação entre espectador e obra.

Abusando do impressionismo (a já citada dança com a Lua, as luzes de Nova Iorque, a festa borrada), a direção de Petra insiste em levar a obra como o processo da cicatrização da dor sentida por ela e por sua família. Passando pelos lugares onde sua irmã costumava passar, levando sua mãe ao local onde ocorreu o suicídio, nota-se que a dor sentida por Elena foi transmitida à Petra, e que a complexidade dos questionamentos internos agora estão com a filha mais nova.

Outro forte artifício usado para retratar a difícil fase da aceitação é a representação da água. Da mesma forma que uma banheira nos aceita como a mais confortável das camas, ela pode nos afogar, nos coloca para refletir e, por isso, vejo a cena da mãe das protagonistas com sua face no limiar entre o afogamento e o relaxamento como a mais fiel das comparações (quem já passou pela perda, sabe que a maioria das nossas reflexões mais profundas se dá embaixo de uma corrente d água). Também às mulheres que seguem o rio, restam os olhos fechados e a esperança de que essa água as lave da dor. Petra, claramente, utiliza de seu filme para a construção da capacidade de mudar, pois nós somos obrigados a evoluir, somos obrigados a deixar a corrente passar.

Se não sobrassem maneirismos apelativos (talvez até comerciais), notaríamos um dos mais belos documentários nacionais dessa geração de franquias acéfalas, mas somente ficamos com uma maravilhosa homenagem e com um dos passos do crescimento pessoal de Petra.

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