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Titanic (James Cameron, 1997)

Entretenimento com selo James Cameron de qualidade

Por Rafael Lopes

O que explica o fenômeno Titanic?

O transatlântico luxuoso que protagonizou uma das maiores tragédias marítimas do século XX rendeu um filme com suas mesmas proporções: grandioso, pretensioso, marcante. Grandioso em toda a recriação do navio, num trabalho cinematográfico impressionante até mesmo nos dias de hoje; pretensioso, na visão do seu diretor James Cameron, de se estabelecer como grande realizador de mega produções e se auto intitular o rei do mundo; e marcante, pois até hoje, ainda causa fascínio em muitos e ódio em muitos outros, mas ainda assim, um filme já cravado na história do cinema.

A base para a história que Cameron quer contar é um romance. Entra em cena os velhos clichês, de amor proibido, moça rica, rapaz idealista e pobre, ela prometida a um rico, ele mostrando a ela que há uma existência fora daquela prisão de costumes e hipocrisias, e os dois jovens, desafiando toda uma organização social para ficarem juntos. Na primeira parte, os emblemáticos Jack (Leonardo DiCaprio) e Rose (Kate Winslet) são simplesmente jogados dentro de uma cova de leões. Ela precisa de casar com Cal (Billy Zane) para salvar o nome de sua família, afundado em dívidas, e ele, um aventureiro nato, num navio que mais pode ser comparado ao mundo: uma grande divisão de classes.

Os ricos da primeira classe tem do bom e do melhor; o pessoal das classes inferiores dividem espaço com ratos e precisam de inspeção sanitária antes de entrar. Engraçado, não? Rose não se encaixa onde vive e Jack tem a malícia de se encaixar onde dá. Os dois se conhecem quando Rose tenta se livrar daquilo tudo, numa tentativa de suicídio frustrada por Jack. O envolvimento dos dois fica forte quando um conhece o mundo do outro. São dois mundos divididos primordialmente pela clara divisão de classes, interesses e ideologias. Jack é pobre mas visivelmente tem mais experiência e inteligência do que os estudados. Quem disse que o mundo não é dos mais espertos?

Rose, a humilde aprisionada nas roupas de uma rica, encontra seu lugar e descobre um mundo além do que ela poderia imaginar. Há uma libertação quando ela segue Jack até a festa da 3°classe. Os dois se envolvem demais. Entra a segunda parte, os surgimento do forte sentimento em contraste da grande virada em suas vidas que se segue na mesma noite. Um iceberg provará mais uma vez que no mundo existente naquele navio, só quem tem mais posse, conseguirá um lugar ao sol. A metáfora é cruel, e aquilo é cada vez mais próximo de nossa realidade.

 O navio começa a afundar, não há botes o suficiente, quem terá preferência? Ricos. Num bote onde cabem 70 homens, 12 pessoas desfrutam da vida agradecendo por não estarem num bote lotado ou simplesmente não dividirem com inferiorizados. A questão da divisão de classes é a pauta do filme, onde no amor entre Jack e Rose há a provação de que ambos podem ser um só, mas na selvageria da sobrevivência, é cada um no seu lugar. Infelizmente. O clímax do filme, o naufrágio, é também o grande momento do filme. Incrível do início ao fim, e ainda assim, mantendo a proposta desde o começo: a existência dessas covardes divisões que existem onde quer que se vá. Para se ter uma ideia, dos passageiros de primeira classe, 60% foi salvo, porém, da 3° classe, apenas 24%, e isso não passa impune na câmera de Cameron. Ele levanta essa questão, peca em não debater com maturidade e seriedade, mas deixa explícito, isso já é algo.

Toda a grandiosidade da cena demonstra a qualidade da equipe que caprichou no serviço. Claro, tem peças de borracha, erros grotescos onde pode-se ver câmeras e outras coisas que deveriam permanecer nos bastidores, mas ainda assim, é um efeito ao mesmo tempo esplêndido e chocante. O desespero, o medo e poucas perspectivas de salvamento são angustiantes, e funcionam muito bem para o trabalho dramático clássico clichê que se quer alcançar. A grande graça do filme reside aí. Em termos de diálogos e construção de emoção, obedece a todos os fatores pregados por filmes como …E o Vento Levou, onde o tom novelístico impera. É tanto que assim como o filme de 1939, Titanic se vende e se comporta o tempo todo como um épico clássico romântico.

A beleza do romance exaltado com a belíssima fotografia, a montagem sugestiva e trilha sonora açucarada, e logo depois, a grande virada onde o clímax acontece, a fotografia ganha um estilo mais sutilmente maniqueísta e a trilha fica alternando hinos religiosos e a mais pura angústia. E tudo isso conduzido com maestria por James Cameron. E é isso que torna o filme tão cultuado. É uma mistura de tudo o que pode dar certo em um filme, uma mistura de tudo o que o grande público quer: diversão e nada mais. Tanto que Cameron durante o filme todo levanta as questões de divisão de classes, mas não para inserir num contexto de crítica, mas sim, para embasar a existência de seus protagonistas, pertencentes justamente a cada parcela desses mundos diferentes.

E como diversão, o fenômeno Titanic se explica. É sem dúvida um dos filmes mais marcantes, seja pra bem ou pra mal, é um filme que fez história. Quebrou recordes, estabeleceu novos recordes e se tornou um exemplo de sucesso dentro da grande indústria do cinema. Alavancou as carreiras dos jovens DiCaprio, hoje um dos grandes atores dessa geração, e Kate Winslet, agraciada com várias indicações a Oscar – ganhando por O Leitor – e presente em muitos filmes consagrados recentemente. Tornou-se também o segundo filme na história a ter 11 Oscar vencidos e por mais de 10 anos como a maior bilheteria da história, batido recentemente por outro trabalho de Cameron – e que ironicamente obedeceu a mesma linha de desenvolvimento de Titanic, Avatar.

É um filme muito bom, que a cada assistida torna-se uma aventura realmente, onde no meio de todo aquele fantástico realismo, consegue nos fazer ser passageiros do RMS Titanic, e ativamente participar de seu momento mais histórico. Um trabalho que mesmo passado anos, ainda impressiona e encanta.

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