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Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lynne Ramsay, 2011)

O filho da mãe

Por Rafael Lopes

O livro “Temos que falar sobre o Kevin” é uma agoniação só. Escrito em formato de cartas, o livro desenvolve com um pé no gênero do thriller os dramas de uma mãe que se culpa por ter criado um monstrinho que matou os colegas da escola com um arco e flecha. O enredo polemico e a narrativa diferente, chamam atenção pelo realismo que chega a ser assustador – ainda mais em se tratando de atentados do tipo em escolas americanas –, credenciaram o livro a ser uma adaptação a ser olhada com mais carinho, pois diferente de muita coisa que é adaptada, e não desmerecendo seus méritos, esse é de longe o que mais desperta interesse para analisar os fatos da história e traze-la para o mundo real. Coube à diretora escocesa Lynne Ransay a tarefa de trazer à tela grande essa história. E ela executou tudo muito bem.

A começar pela montagem do filme. Assim como no livro, era preciso contar a história de uma maneira diferente. Se nas cartas do livro a mãe batia na tecla que se sentia culpada pelos eventos, o filme embasa toda a sua existência na forma de lembranças, flash backs que vão aos poucos construindo todo o caminho que culmina no massacre na escola. Tal qual Gus Van Sant em “Elefante”, o filme possui um ritmo lento, a principio não tão interessante, mas nesse caso também, extremamente necessário. É o caminho que mais facilmente deixa espaços para que sejam feitas não apenas análises sobre o psicológico dos personagens, mas também o caminho para que a atmosfera dos personagens seja criada.

Eva (Tilda Swinton) conhece Franklin (John C. Reilly), dois aventureiros que loucamente começam uma história, marcada pelo “acidente” chamado Kevin (Ezra Miller). Estavam eles contentes com tal feito? Estavam eles prontos para isso? O filme não chega a desenvolver isso, até porque seria de certa forma um desperdício, melhor mesmo é focar nas consequências que levam a outras perguntas mais pertinentes: até onde isso influenciou na diabólica pessoa de Kevin? Até onde essa distancia os levaria? Consciente, o espectador tem a certeza que o casamento do filme não é uma relação simbiótica causada pelo amor, mas sim uma união que sobrevive com muita boa vontade e que só foi causada pelo “acidente”. É só notar a diferença do humor de quando se conheceram e de quando decidem viver juntos.

Kevin cresce nesse ambiente e torna-se produto do meio. Sente que não foi exatamente planejado, chegou de gaiato no navio e entendendo sua função nessa zona, assim ele será. É partindo disso que o filme chega a seu maior acerto, todo o longa trata principalmente de uma história de redenção. Todos sabemos onde isso chegará, mas sofremos junto da protagonista a difícil tarefa de dar a volta por cima. Julgada por quem perdeu um filho no massacre da escola, culpada por ter dado a luz ao monstro que friamente matou e não demonstrou arrependimento, humilhada e se sentindo culpada. Brilhante o uso do vermelho para muito bem evidenciar essa característica, sendo ele o vermelho que um dia foi alegre, como no começo do filme em mais uma de suas aventuras, mais precisamente naquela guerra de tomates que tem na Espanha, e foi se tornando o vermelho do julgamento, o vermelho da culpa, o vermelho do sangue.

A direção trilha o caminho de Eva tentando se reerguer, se separar do passado macabro que ficou e olhar pro futuro com o mínimo de chances de abandonar essa culpa. A casa pichada de vermelho é a metáfora mais interessante, pois enquanto limpa, vai lembrando de tudo, de desde que tinha uma vida aparentemente feliz até o fundo do poço onde se encontra agora. Da ambivalência de algumas mulheres diante de uma gravidez e a influencia disso na vida de uma criança. Seguindo essa linha, o filme disserta de maneira impecável essas situações, sem melodramas e sem hipocrisias, trazendo a ideia do livro à nossa realidade de forma inteligente e bem amarrada. As atuações exalam essa responsabilidade, essa culpa, tudo, acompanhados de uma fotografia nervosa, vermelha, tensa.

Toda a atmosfera, criada com muito brilhantismo, vai dissertando e desenvolvendo tudo para que no fim toda a violência seja compreendida, toda a culpa seja encarada e toda a dor aliviada. Uma adaptação que trouxe, definitivamente, todo o tom critico e polemico sem perdas, com ganhos, que fazem desse Precisamos falar sobre o Kevin um filme que por mais que seja doloroso, é nada menos que imperdível.

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