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Faroeste Caboclo (René Sampaio, 2013)

O quase faroeste

Por Rafael Lopes

Para todos que esperavam que Somos Tão Jovens fosse único e absoluto para lembrar do trabalho de Renato Russo e o Legião Urbana, Faroeste Caboclo é um acalanto. Já que o primeiro resultou num medíocre filme, podemos dizer que o filme inspirado numa das mais famosas música do trovador solitário e líder da legião é mais que uma grata surpresa: é um pedido de desculpas. Isso porque Faroeste Caboclo é tudo o que Somos Tão Jovens deveria ser e não foi.

Trabalho de estreia do publicitário René Sampaio no cinema, ao longo de seus 105 minutos o filme não deixa a desejar. É atrapalhado por pequenos furos, é verdade, mas ainda assim superior no que diz respeito a tratamento dado à fonte original. Se no primeiro o filme virou uma salada sem gosto, esse consegue se manter interessante sem se apressar e ainda se manter corretamente fiel à obra original. Das origens humildes do João de Santo Cristo ao embate sangrento com Jeremias pelo amor de Maria Lúcia, o filme deturpa alguns pontos da música para seu bem e mesmo que René seja novato no formato cinema, consegue segurar as pontas e imprime personalidade ao filme.

Isso muito melhor evidenciado nos atores em trabalhos exemplares. Fabrício Boliveira, o escolhido para interpretar o icônico protagonista tira de letra a tarefa de personificar o mito João de Santo Cristo. Pobre, negro, analfabeto. Tenta mudar seu destino mas não consegue furar os caminhos da vida, migrante na capital federal, junto de seu primo Pablo (o famoso peruano que vivia na bolívia) inicia um império das drogas afrontando o violento Jeremias e suas conexões. Situar esse personagem dentro do conturbado cenário político dos anos 80 foi um coringa muito bem utilizado pelo diretor, que preferiu deixar de lado o lado emocional do protagonista (muito bem trabalho por Boliveira) e focando nas razões de sua infeliz existência. Infelizmente não conseguiu acertar na inserção de Maria Lúcia (Isis Valverde) que se esforça como pode para seu personagem funcionar no filme.

A princípio até consegue mas chega um ponto que a existência da personagem ofusca todo o interessante panorama criado para nos ambientar ao universo de Santo Cristo. O que seria a derradeira reviravolta do filme – que seria o momento mais importante de sua personagem – é castigado pela escolha infeliz do roteiro e pelo diretor não conseguir ligar os pontos no momento mais crucial da fita, deixando um ar confuso e que acaba prejudicando a entrega de Isis à personagem. Em contrapartida, Jeremias (Felipe Abib) compensa todo o estrago feito à Maria Lúcia sendo depois do Santo Cristo o personagem mais interessante do filme. Abib arrebenta em cena, fazendo ser esse um personagem ainda mais escroto que na música, ou seja, um vilão brilhantemente idealizado.

Girando entre esses personagens muitos outros vão aparecendo e são muito bem apresentados, desenvolvidos e resolvidos na trama. O que acaba funcionando muito bem uma vez que o filme acaba por ganhar em agilidade e não deixa pontas soltas com relação a eles. A fotografia e a trilha sonora aparecem como os grandes destaques técnicos do filme. O primeiro é quase uma releitura dos faroestes italianos, mais evidente ainda em cenas chave onde a influencia é didaticamente seguida a risca. A trilha é excelente, com direitos as guitarrinhas clássicas inspiradas em Morricone, o rei das trilhas faroestes. Só ficou faltando aproveitar melhor o fato de ser uma versão faroeste brasileira.

Faltou um pouco de capricho nos tiroteios e no ato final (que por um segundo podiam até usar o famoso “trielo” de Três Homens em Conflito, que viria muito a calhar), onde o filme poderia finalmente consolidar as tantas qualidades que veio construindo no desenrolar do filme. Enfim, Faroeste Caboclo por mais que conte com derrapadas, consegue superar tudo isso resultando num filme nada menos que interessante.

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