, ,


A Noviça Rebelde (Robert Wise, 1965)

 

O filme família

Por Rafael Lopes

Engraçado que 1 ano antes de A Noviça Rebelde, Julie Andrews já encantava a molecada de um jeito materno e doce (nos fazendo travar a língua tentando cantar Supercalifragilisticexpialidocious) com a inesquecível Marry Poppins e isso já é gabarito suficiente para que fosse única e absoluta na pele de Maria, a noviça do título do filme. Baseado no último trabalho dos lendários Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para a Broadway e na história verídica da família Von Trapp, que encontrou na música a fuga do nazismo, o filme tornou-se um sucesso meteórico e que até hoje continua conquistando mais e mais fãs.

Maria, assim como na música, como encontrar uma palavra que a defina? Uma caprichosa? Uma luz que guia? Uma palhaça? Por mais que insista em se enganar, ela não nasceu para o disciplinar e fechado universo das freiras. Suas travessuras e fugas para as montanhas para se sentir viva a levam a esse dilema que só pode ser resolvido de uma forma: aprender um pouco sobre o mundo real, na casa dos Von Trapp e aí sim ter a certeza de que os votos de fidelidade à igreja será o certo para seu destino. Lá conhece o Capitão Von Trapp (interpretado por Christopher Plummer) e a maneira militar com a qual cria seus 7 filhos. Da mais velha com 16 anos à mais novinha, 5, nenhum deles quer uma governanta para lhes dizer o que fazer. Mas a simpatia deles é justificável, sem a atenção dos pais, resta às mulheres contratadas para por alguma ordem em casa pagar por isso. A última durou duas horas, quanto tempo durará Maria?

Aos poucos ela vai ganhando o coração da meninada (e do capitão também, que mesmo prometido à baronesa, já sente o coração amolecido) e se consolidando como refúgio dos pequenos que experimentam o gostinho da atenção e do amor de uma pessoa de maneira mais plena. Através da música Maria desperta nas crianças o talento nelas escondido e a confiança para que amadureçam. Robert Wise não se complica evitando fazer evoluir na trama qualquer drama mais complicado se deixando levar apenas na construção da relação Maria/crianças/Capitão. Uma pegada meio água com açúcar, é verdade, mas que dentro da proposta do filme funciona da maneira mais perfeita possível.

Andrews com muito talento entrega uma atuação definitivamente à altura das exigências de sua personagem. Simpática, infantil e talentosíssima em tudo sua Maria não soa como uma cópia da Marry Poppins e possui toda uma personalidade que cresce na tela. Disso ela facilmente conquista não somente os personagens do universo do filme mas toda a plateia e essa ligação é crucial para o desenrolar da trama. Tudo isso porque o diretor espreme dela e da personagem essa necessidade que a faz ser a ponte entre filme e publico. Plummer apesar da ótima presença na tela fica totalmente coadjuvante por pelo menos 80% do filme enquanto Andrews e as crianças fazem a duração demasiadamente longa passarem voando.

Os números musicais são parte importante da trama mas não são os grandes destaques, o que dá total liberdade para as crianças aparecerem. São canções bonitas, grudentas, mas que ficam de uma forma que não seja o grande atrativo do filme mas sim parte da construção do filme. Maria cantando My Favprite Things ou o capitão cantando Edelweiss, duas canções chave para o momento derradeiro da trama são exemplos disso. Wise aproveita cada minuto do sangue jovem do elenco e abusa de seus talentos fazendo suas participações nos números musicais ainda mais destacadas.

A química que vai surgindo entre eles é o que resulta na maior qualidade do filme: o entretenimento, completo por sinal. Tudo da fórmula dos grandes clássicos está presente e extremamente bem trabalhado. Lindos figurinos, lida cenografia, linda fotografia, belas coreografias, humor bobinho e quando o filme precisa ser sério, consegue ser sem desgrudar nossa atenção. O ato final, envolvendo nazistas, tem toda uma tensão bem construída que fecha o filme de uma maneira honesta e belissima. Tudo em A Noviça Rebelde deu certo. Vieram 5 estatuetas do Oscar (incluindo os prêmios para filme e diretor) e toda uma eternidade para que gerações e gerações apreciem essa obra prima.

Comments

Leave a Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments