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Eraserhead (David Lynch, 1977)

 

Bem vindo ao mundo surreal de David Lynch

Por Rafael Lopes

Você lembra-se dos seus sonhos mais estranhos? Daqueles sonhos que se afunilam para os momentos mais angustiantes de sua vida?

No ano de 1971, com 10 mil dólares, David Lynch deu início ao seu autoral e ambicioso projeto. O que viria a ser o primeiro filme de sua carreira é também uma visão de um mundo paralelo que nos acompanha pela vida toda: os sonhos. E acompanhamos aqui, um período conturbado da vida de Henry Spencer (Jack Nance). Sua antiga namorada (Charlote Stewart) guarda um segredo, que é revelado pela mãe dela num tenso jantar “de família”. Ele é pai de um bebê prematuro, que nasceu com deformidades assustadoras.

A nova “família” passa a viver junto e começam a passar por uma grande provação. Pais de primeira viagem encarando as perturbações do choro do filho. A mulher não agüenta e o larga com a criança. Henry passa a se ver como o responsável por aquilo e inicia-se uma cadeia de sonhos que vão tratar de traçar tudo o que ele precisa até chegar a conclusão de que deve dar fim a vida da criança. E os momentos que se seguem até o desfecho, são conduzidos de uma maneira desconfortante, desconstrutiva, até certo ponto cruel, e sutilmente, com tons de pura redenção.

Sombras, pouca luz, um breu imenso e a fotografia em preto e branco. É um filme aparentemente sem vida, ou com uma vida bastarda, feia, que só trouxe desgosto. O filme já começa destruindo qualquer resquício de amor ou bom sentimento que possa existir. As pessoas e suas vidas são vazias e elas seguem vivendo como robôs, estagnados e perdidos em seus próprios pensamentos. A cena do jantar, onde Henry descobre da origem de seu filho, tira qualquer possibilidade de aquela escuridão ganhar cor, daquela vida dele ganhar alguma vida.

Chegam em casa, mais amor sendo destruído, e percebemos que ele diz que, amor de mãe na verdade é instinto, como os animais . Constatar isso é horrível e o filme começa a traçar os rumos que levará o espectador a literalmente viajar na própria mente. E é naquela casa que o filme se desenvolve. Lynch não quer contar o começo de nada, apenas os seus meios que logo justificarão seus fins, querendo ou não, tudo nesse mundo é resumidamente os meios justificando seus fins, e já deixamos de acreditar no destino.

E como não há qualquer vontade do Henry em amar o filho, até mesmo quando o pobre aparece doente, é quando ele viaja em pensamentos que chegam ao adultério. A vizinha morena (nada das habituais femme fatales loiras), mesmo sendo prostituta, lhe oferece algo que nem mesmo ele consegue retribuir: carinho. Na cena, enquanto fazem sexo (uma das cenas mais peculiares e estranhas que já vi), o bebê chora, ela tenta ver o que se passa mas logo Henry trata de evitar que ela aviste a aberração, não com medo de que ela fique chocada com seu rebento, mas sendo egoísta com o que está recebendo no ato sexual. E o que admiro muito no cinema do Lynch é que, ele torna o ser humano desprovido de qualquer sentimento, tornando-o um ser que age por instinto, e assim, se sente na posição de tratar e destratar com seus egoísmos. Até mesmo o carinho se perde aqui.

Os cenários são carregados de alegorias que nos remetem a várias vanguardas da arte moderna, como o futurismo e o surrealismo. Casando elas com uma notória influencia do expressionismo alemão, onde brinca com sombras e luzes, ele imprime a seu filme o que faltava para tornar aquilo à experiência que é. Dando até a impressão de que o bebê deformado é mais humano que os seres que o rodeiam. É surreal e pessimista a visão que ele dá das pessoas. Elas aparentam a mais pura e sincera inocência, mas no fundo, são seres egoístas preocupados com próprio nariz. Talvez esse seja o sentimento mais evidente durante o filme: o egoísmo.

Ele começa a sonhar, e seu inconsciente, por mais que lhe assegure que No céu está tudo bem”, começa a fazer um jogo que vai dar os rumos a serem seguidos por Henry para o fim de seu problema. Metaforicamente, através de uma máquina de fabricar lápis, Lynch consegue nos fazer enxergar que fazemos o que queremos (quando o lápis escreve) e logo apagamos o que nos deixa incomodados ou que nos atrapalhe (quando o mesmo lápis, com cabeça de borracha, apaga tudo – daí vem o título do filme) e as lembranças vão ao vento, como o pó que a borracha deixa.

E ele usa e abusa desse artifício, pra dizer que agimos assim, e no final das contas é assim mesmo. Escrevemos o que queremos e apagamos o que bem quisermos, e isso não é involuntário. Nossa mente, no inconsciente, trabalha incansavelmente para nos dar a sensação de alívio ou conforto. Talvez por isso traçássemos nossas verdades e apagamos fatos, para que tudo seja como bem queremos. Mas logo o filme trata de explicar isso, não como um defeito, pois não há defeito a ser mostrado e sim, como o ser humano age instintivamente, não racionalmente.

As alegorias de Lynch não soam exageradas, tampouco rasas. Tudo sem sua profundidade e relação direta com a minha e a sua vida.

Tudo o que ele pode fazer para despertar o desconforto, seja através de som ou imagens – fortes por sinal – ele faz. E nos consegue fazer enxergar uma visão pessoal de tudo o que ele está mostrando na tela. O filme possui poucos diálogos e muitas imagens, que compõe uma ópera sobre o medo e a solidão. Os sons do filme, são uma anunciação do declínio do ser humano como objeto que antes vive através de sentimentos, e depois torna-se um objeto que vive através de instintos e comandos, como uma máquina, máquina essa que mostra o mundo como algo totalmente uniformizado, que pulsa produzindo o caos, caos esse interior, o pior de todos.

E seguindo esse caminho, depois de 5 anos trabalhando em cima desse filme (contando com dinheiro emprestado de amigos), David Lynch nos oferece uma obra complicada e desumana a princípio, porém profunda sobre os questionamentos mais humanos e sobre o que nos torna mais vivos. Um filme que nenhuma palavra pode definir, mas que cada um, em seu interior, possa sentir e concluir por si só, a grandeza de suas intenções e pretensões.

Uma viagem incrível.

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