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Enterrado Vivo (Rodrigo Cortés, 2010)

Por Vítor Nery

Enterrado Vivo, do cineasta espanhol Rodrigo Cortés, é uma das experiências mais ousadas e claustrofóbicas da última década. Nesta película de 95 minutos, Paul Conroy (Ryan Reynolds) – um americano que trabalha como motorista de caminhão para a CRT – é sequestrado durante uma entrega de mercadorias em solo iraquiano. Ao acordar, ele percebe que está “a sete palmos do chão”, portando nada além de um isqueiro, uma lanterna, um celular com metade da bateria e 90 minutos de oxigênio. Sem saber como, onde ou a razão de estar ali, Paul deve correr contra o tempo para tentar sobreviver.

Com mãos ágeis para a direção, Cortés consegue nos fornecer, em seu longa de estreia, uma brilhante releitura de Beatrix Kiddo enterrada viva em Kill Bill – Vol. 2. A diferença: o que antes era apenas mais uma ocorrência dentro de um panorama vingativo, agora se estende a uma dosagem frenética de suspense. Dotado de estilo próprio (presente também em Poder Paranormal – 2012), Enterrado Vivo consiste, de imediato, numa premissa tensa que pretende gradativamente aumentar sua carga dramática. E consegue.

Ryan Reynolds, subestimado por conta dos inúmeros papéis mornos em comédias românticas (agora, ainda mais devido ao fracasso de Lanterna Verde), silencia a todos com seu desempenho versátil e vívido, sustentando a tese de que fora dos blockbusters podem ser (re)encontrados memoráveis talentos. Em contribuição equitativa ao enredo, a escuridão do ambiente, constantemente intercalada à fraca chama do isqueiro de Paul, nos faz viver o pânico e os anseios do personagem, de modo semelhante a um prólogo de games do tipo point-and-click.

Há quem compare Enterrado Vivo ao incrível 127 Horas, que conta a história real do alpinista Aaron Ralston em sua jornada pelo Grand Canyon, onde acaba preso numa fenda. Trata-se de uma associação aceitável, mas com algumas observações: enquanto na produção de Danny Boyle ainda se constatam algumas mudanças de cenário, maior elenco de apoio a James Franco e um orçamento de US$ 18 milhões, Enterrado Vivo, trabalhando apenas com diferentes ângulos do caixão e vozes para compor os outros personagens, conta com um modesto investimento de US$ 3 milhões. Ainda que aquele seja mais intenso e humano, este é uma prova do que se pode elaborar com “pouco”, desde que se tenha intuição e habilidade.

Contudo, o mais interessante é que o filme estrelado por Reynolds ainda traz à tona, durante as ligações telefônicas, a discussão acerca da perversidade do governo estadounidense, majoritariamente movido pelo status e pelo lucro – atitude no mínimo corajosa.

Isto posto, pode-se especular sobre o futuro de Cortés nas telas. Ao manter total atenção do espectador por meio do retrato de ferramentas simples como fatores imprescindíveis ao sucesso do protagonista, ele acaba atribuindo caráter de destaque à sua primeira obra. Não se sabe se Enterrado Vivo será, daqui a alguns anos, referência das produções independentes do gênero, mas é fato que bem definiu uma trajetória para seu diretor. Sabendo trilhá-la de forma madura, quem sabe ele ainda possa adquirir chances de figurar entre os nomes dessa nova geração autônoma? A tarefa é ardua, e só o tempo irá ditar a resposta.

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