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O Cavaleiro Solitário (Gore Verbinski, 2013)

UM BELO EXERCÍCIO DE ESTILO, E SÓ

Por Rafael Lopes

Em Rango, Gore Verbinski conseguiu um faroeste brilhante passado num universo habitado por répteis e demais criaturas dos desertos. Se lá deu certo, porque não investir num filme com atores reais? Entram em cena Jerry Bruckheimer (que não tem dó de gastar dinheiro) e Johnny Depp, um autentico enchedor de salas de cinema. O resultado? Menos do que se espera.

Se por um lado Verbinski esbanja qualidade para construir um faroeste com todas suas características, não consegue por outro lado manter o mesmo padrão no que diz respeito à condução de sua história. E isso infelizmente faz com que O Cavaleiro Solitário seja mais do mesmo. Reinventar um personagem famoso no passado é uma tarefa que requer acima de tudo um respeito ao que tornou esse personagem um ícone. Nem mesmo isso a nova versão do Cavaleiro Solitário conseguiu respeitar. A título de curiosidade, é a primeira adaptação em que o interprete do índio Tonto ganha um cachê mais alto que o do protagonista, e essa situação se repete no filme: o coadjuvante vira o protagonista.

Armie Hammer, que fez sucesso em A Rede Social, foi o escolhido para personificar o herói (que por muito tempo foi conhecido no Brasil como Zorro). Ele interpreta John Reid, que viria a experimentar o gosto da morte, renascendo para fazer justiça à margem da lei ao lado de Tonto (Johnny Depp), um místico índio, cheio de mistérios e que funciona como mentor de Reid. Os dois partem em busca de um perigoso bandido que come o coração de suas vítimas, mas logo descobrem uma criminosa rede disposta a tomar dos Comanches suas terras para a construção de uma ferrovia. É, então, dever deles impedir um sangrento combate entre índios e soldados e fazer tudo voltar a seguir nos trilhos da justiça.

Dá pra dizer que a aposta em O Cavaleiro Solitário para um novo público é demasiada arriscada, mas em se tratando de pessoas acostumadas ao sucesso a seu lado, pode ser que dê certo. Mas como era de se imaginar, deu errado. A maior complicação desse processo todo é justamente fazer com que algo de tanto sucesso nos anos 50 seja vista aos olhos dos dias de hoje com o mesmo apelo. Como fazer isso? Simples, tornando viável para o mesmo publico alvo: os jovens. Lá vem Johnny Depp mais uma vez caracterizado de maneira caricata, lá vem um roteiro sem vergonha mais preocupado com piadas e com o intuito de jogar para Depp toda a responsabilidade de levar o filme adiante, lá vem cenas de ação entupidas de efeitos especiais espetaculares e muita pirotecnia. Todos os ingredientes do filme do verão não é? Sim, é, mas bem mal feito.

Dando essa “roupagem” para atualizar o personagem é um enorme desperdício. São intermináveis 149 minutos para contar uma história resolvida em menos de duas. Muitos detalhes as vezes cansam e quando esses detalhes não levam a lugar algum é difícil manter o interesse no filme. Essa falta de objetivo explica o fato de o índio Tonto ser, então, o verdadeiro protagonista, roubando para si o máximo de cenas que pode. Armie Hammer até tenta, mas em vão. Com isso, nada do clássico Cavaleiro Solitário resiste às investidas cruéis da produção em apresentar um personagem tão querido por várias gerações, fazendo o personagem parecer um bobão com um índio místico mais bobo ainda batendo cabeça procurando algum sentido de justiça no velho oeste.

Deturpam com tanto gosto que até a música tema do personagem (na versão metalizada de Hans Zimmer) é inserida erroneamente – tirando toda a graça da cena, que é o embate final – e até a frase símbolo do Cavaleiro Solitário sofreu com a barbarização da “atualização” do personagem. O que salva mesmo é a bela reconstrução do velho oeste, bem estilizada, trabalhando bem as características que tornam o gênero único. O departamento de Set, figurinos, maquiagem e fotografia estão de parabéns. Gore Verbinski aproveita bem desses artifícios técnicos e consegue maquiar um pouco da mediocridade do filme, mas não é suficiente. Infelizmente.

Em suma, é um filme que peca pelo excesso de pretensão. Tenta soar uma novidade reciclada como “Piratas do Caribe” foi em 2003, mas de semelhante só a tentativa de Johnny Depp fazer seu Tonto ser um novo Jack Sparrow. O resto é um mais do mesmo tão chato e cansativo que tá contribuindo pro filme ser o mais novo fracasso da Disney, cujas estimativas de prejuízo giram em torno de U$150 milhões.

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