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O Homem de Aço (Zack Snyder, 2013)

 

Zack Snyder ataca novamente.

Por Rafael Lopes

Já são 75 anos de vida e o Superman talvez seja um dos heróis mais complicados de se adaptar para o cinema. Talvez pelo fato de seu tom existencialista casar melhor com o universo dos quadrinhos – que pode ser expandido a bel prazer sem perdas significativas para seu significado – ou simplesmente pela ideia vir carregada de uma questão bem simples: como por um homem com capa e cueca por cima da roupa não parecer ridículo? Nos idos anos de 1978, Richard Donner teve um de seus maiores êxitos como diretor assinando esse que poderia ser chamado de percursor de adaptações de quadrinhos no cinema. Infelizmente datado, mas ainda assim um ótimo exemplo de que dá pra fazer um filme com tão icônico personagem, Donner e cia obviamente não contavam com os recursos tão aprimorados dos dias de hoje mas mantendo-se fiel a mística do personagem e das características que o tornaram tão popular, conseguiu construir uma boa aventura. Tanto que para os olhos dos anos 70 funcionou muito bem, o que certamente faria crescer um interesse de ver um filme que impactasse o exigente público de hoje em dia – lembrando da falha, porém nobre, intenção de Bryan Singer de reviver o Superman dos anos 70 em plenos anos 2000.

Eis que tempo propício como esse não há. Além do aniversário do personagem, pegando carona no sucesso do universo Marvel nos cinemas, porque não investir em um recomeço? Se deu muito certo com o Batman, daria com um dos principais personagens da DC. É só trazer Christopher Nolan ligado à produção, David S. Goyer no roteiro e  encontrar a pessoa ideal para liderar o projeto. Parece simples, mas é o cara que chamaram pra dirigir que acaba sendo o calcanhar de Aquiles do pretensioso, porém modesto, O Homem de Aço. Zack Snyder, que ganhou status suficiente para ser referencia (e ser gabaritado como visionário nos cartazes de seus filmes por usar câmera lenta e fotografia estilizada em cenas de ação) fez o que se esperava: uma divulgação vendendo o filme da temporada, um filme maduro, intimista, sensacional, espetacular, e no fim das contas entregando apenas algo básico e muito aquém das espectativas.

Snyder é o tipo que gosta de que a estética esteja acima do filme, ou seja, prioriza embelezar suas cenas parecendo pouco se importar com o andamento do filme. Foi o que matou a adaptação de Watchmen e é onde começa os problemas de seu mais novo longa. Corajoso por explorar situações pouco vistas em outras adaptações do Superman e bastante negligente com pontos chave que poderiam significar o sucesso de seu longa. Abre mão disso em detrimento daquilo não parece uma decisão correta, e isso no fim das contas se conclui como fazer parecer bobo quem se sentia tão épico. Interessante ele levantar questões pertinentes à sua proposta inicial (ser um filme onde o intimo do Superman é discutido) como por exemplo as dificuldades de alguém tão diferente e tão a frente da humanidade tentando controlar os instintos causados pela intoxicação com nossa atmosfera. É muito bacana ver o Superman não associado como um herói com grandes poderes, mas sim como a um extraterrestre que adota o planeta Terra como sua casa.

Num primeiro momento Snyder trabalha isso com muita tranquilidade, ajudado por uma montagem que tece um paralelo interessante entre o homem sem identidade procurando por sua origem e a criança estranha que sofre na escola e não pode revidar por ter consciência do que pode fazer. Mas não demora muito pro diretor por a perder a chance de ouro de transformar isso no motor de sua trama. Escolhe partir pras cenas de ação e isso resulta em momentos constrangedores. A morte de Jonathan Kent nos faz pensar “como eles imaginaram isso?” e ainda dão uma explicação que não convence e por aí vai. A trama acelera de tal forma que vão atropelando tudo, jogando os personagens de sempre pra dar a sensação de que estão no filme, como por exemplo o editor do Planeta Diário Perry White e até mesmo a Lois Lane, que quando não está sendo intrépida está descobrindo como mandar uma nave alienígena para um buraco negro.

Henry Cavil, o primeiro ator não americano a interpretar o Homem de Aço, não convence e não soa a escolha correta. Sua interpretação de cera está longe de envolver quem assiste, ficando no mesmo patamar do Brandon Routh, que pelo menos se esforçou. Amy Adams, a Louis, é tão perdida quanto sua personagem dentro da trama – e o beijo do casal protagonista é tão sem química que quando acontece fica a pergunta no ar: “eles ao menos flertaram?”. Porque numa hora estão salvando o mundo e de repente cresce uma vontade louca de se beijar, não deu pra entender. Destaque mesmo vai para Michael Shannon, que aproveita a chance e nos entrega um General Zod que rouba todas as cenas. Por ele ainda vale alguma coisa no filme. Contando com um diretor que parece não ligar muito para a atuação de seus atores, é bem legal notar alguém realmente focado no filme.

De ponto realmente positivo, só o fato de Snyder não exagerar nas suas frescurinhas de câmera lenta. De negativo, todo o resto. Snyder parece não compreender o potencial do filme que tinha em mãos, deixando escapar a oportunidade de trazer o Superman de volta aos tempos de glória. No final das contas soa bem em vão o esforço de despertar tanta curiosidade insinuando uma trama intimista e de busca de personalidade – que se conclui e fica por isso ainda no meio do filme. A pancadaria é bacana, as cenas de ação são realmente grandiosas, mas fica aquele vazio. O Homem de Aço acaba por fim sendo bem mais bobão que a cueca por cima da roupa, mas Snyder continuará exercitando seu narcisismo e sendo rotulado como diretor visionário.

Francamente.

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