Onde os Fracos não Têm Vez (Joel Coen, Ethan Coen, 2008)

Onde os Fracos não Têm Vez (Joel Coen, Ethan Coen, 2008)

A sinfonia da morte dos irmãos Coen

Dinheiro na mão é vendaval (…) na vida de um sonhador” já dizia a famosa canção. Imagine um homem lascado, sem nenhuma perspectiva, que vive uma vida sem graça, se deparando com 2 milhões de dólares? E tendo consciência de que não é dinheiro limpo, sabe que essa alegria literalmente de pobre, pode acabar mal. E assim como nos velhos faroestes, e me vem à cabeça neste exato momento aquela obra de arte de Sergio Leone, Era Uma Vez No Oeste, o silencio é assustador. E ele significa apenas uma coisa: morte.

O início do filme é avassalador. Uma fala pouco esperançosa nos oferece todas as informações possíveis sobre o que está por vir. O Texas e sua aridez mostrada de forma esplendorosa, sua melancolia e solidão. Homens de poucas palavras, usando botas e chapéus e portando armas. Parece a descrição do velho oeste que estamos acostumados a ver no cinema. Os diretores em um trabalho beirando a perfeição quase reinventaram o gênero. O lugar que um dia foi respeitoso, onde o xerife andava desarmado, tamanha a paz reinante, se tornou um caos. As coisas mudaram, e ao que tudo indica para pior.

Aparece então a síntese de todo mal que existe: Anton Chigurh (Javier Barden). De visual cômico, mas de crueldade insana e peculiar. É uma quebra de estereótipo tão incrível, que ao mesmo tempo em que é engraçado é assustador. Enquanto a imagem de um vilão cruel está associada a alguém feio, e desgraçado, Anton tem cabelo Chanel e é absolutamente fora de qualquer suspeita. Seu jeito quieto logo se revela uma verdadeira serpente, que está pronta para dar o bote quando menos se espera. Coitado do policial que sentiu isso na pele. Ele é um exemplo de que as coisas não mais estão dentro dos conformes. Um ser de aparência tão amável mata friamente com um compressor de ar. É engraçado, mais ainda, assustador.

Eis que surge então, Llewelyn Moss (Josh Brolin). Ele está ali caçando. A composição da cena é nada menos que perfeita. O silencio e concentração definitivamente me põe dentro do filme. Somos convidados a sentir aquele lugar. Entre poeira, vastidão e sangue de animal, Llewelyn avista algo que irá mudar sua vida para sempre. Carros abandonados e furados à bala e homens em estado deplorável, agonizando no meio do deserto indicam que ali houve uma mortal troca de tiros e ninguém saiu ganhando. Llewelyn analisando o local sente falta daquilo que certamente motivou aquele cenário desgraçado: o dinheiro.

Ganancioso, ele parte em busca do dinheiro, e nesse momento nada importa, apenas tendo o que gastar está ótimo. E ele parte em busca do dinheiro. Seu faro de conhecedor da área que lhe guia, até encontrar um infeliz e sua maleta, que quanto dinheiro há ali… Llewelyn está moderadamente rico, e já pensa em se aposentar das obrigações da vida e viver a vida com sua esposa Carla Jean (Kelly Macdonald). Mas é na hora de deitar e descansar que bate a dúvida mais cruel de quando se tem poder e não sabe como usar: e agora? O estalo na mente de Llewelyn o leva novamente ao lugar do massacre, e lá descobre que o investimento que ele está fazendo para continuar com o dinheiro, pode lhe custar mais caro do que imagina. Realmente, é um lugar onde os fracos não têm vez. Ele se julga forte.

Ele some com o dinheiro, esconde a esposa, e só vai parar quando tiver certeza que nenhum traficante, nem chefe de cartel, nem porcaria nenhuma da escória vai lhe perturbar. Mas esqueceu que Anton agora está no seu encalço. Ele sim é preocupante. O xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) entra em cena, e toma conhecimeto da situação. Llewelyn está com um problema grande e só ele pode ajudar no momento, ou acha que pode. Ele está velho, sabe disso, mas algo em seu âmago o instiga a crer que pode ajudar e dar um destino certo para Llewelyn e o justo para Anton. Seu colega, um chato e inocente rapaz que se acha policial, é o contraste com a lei do lugar. Já foi severa um dia, hoje possui mais idiotas do que realmente homens dispostos a lutar. Sinal de que as coisas estão diferentes.

Um brutal jogo de gato e rato se inicia. O implacável Anton contra o prevenido Llewelyn, e as mortes que vão sobrando desse embate furioso serve de rastro tanto para o xerife Ed Tom, como para a organização que possui ligação com o dinheiro. O filme começa a ficar ainda mais interessante. Não pelos tiroteios e correrias bem executadas e tensas, mas pela carga pesada que vai ficando ainda mais densa e pesarosa, onde os fracos pulam fora com medo do pior.

Os envolvidos começam a provar do próprio veneno, o destino. Para Llewelyn já foi bom, para o xerife sempre foi pessimista e para o monstro de atitudes quase mecânicas Anton, o destino é ainda mais surpreendente. Ainda mais para ele, que põe as pessoas de frente com o próprio destino apenas para ver até que limite elas agüentam para se manter vivas, apostando tudo num simples jogo de cara ou coroa. O destino com ele é ainda mais cruel, ou irônico, o julgamento é seu.

E quando se pensa que, mesmo tudo violento , tenso e pesado, pode no fim de tudo acabar bem, os diretores sabiamente cortam nossas asas, e o espiral do inferno começa e as quebras de clímax e esperanças compõe o filme até o seu final. E é aí que está a maior qualidade da obra dos Coen. Se utilizando dos piores defeitos humanos eles contam uma história que no fim das contas, defende que mesmo num mundo tão errado e destruído internamente, ainda há compaixão e solidariedade e qualidades realmente louvável nas pessoas. Mesmo o filme sendo violento e denso em boa parte, essas qualidades nobres estão lá.

Mas sem esquecer, claro, que sua mensagem mesmo “bonita”, é carregada por um pessimismo devastador. Será mesmo que o ser humano, cada vez mais individualista e realmente desgraçado, seria capaz de expressar o mínimo de humanidade e cortesia (ao menos isso) para com seu semelhante? E aí que a obra vai realmente deixando claro essa mensagem. Contrastes e pequenas metáforas tomam o lugar daquela violência que nada mais resumia o caos todo (metaforicamente, claro) e chegam onde eles querem chegar: como deixamos tudo chegar a essa situação?

Mesmo que o fim do filme seja rápido, com suas conclusões rápidas, repare que a partir dali as máscaras caem e tudo se explica. Não se trata de um filme policial com muita ação e suspense, mas sim, tudo o que os Coen gostam de fazer de forma dramática e as vezes trágica: por as pessoas em situações limites e de lá exprimir suas características, defeitos, qualidades e daí mostrar como estamos degradados dentro do lugar em que estamos.

Sem filosofias nem frases de efeito nem nada que sejam moralista, eles atingem a ferida, e podemos sentir isso . A fotografia maravilhosa, os planos abertos que revelam a imensidão (e solidão) daquele deserto (e isso já metaforizando o tal do ser humano), a trilha sonora regida por tiros e extraindo o desespero no olhar de seus atores. Tudo reflete essa degradação. Tecnicamente os Coen arrasam e como grandes diretores que são, casam isso com o que seu texto baseado num livro de Cormac McCarthy, de onde também criam seus ótimos diálogos e injetam suas metáforas pra valer.

O som do filme é angustiante. De tão detalhistas e bem colocados e inseridos e mesclados conforme o drama que ocorre na tela assustando e sufocando. Tudo o que fazem é dizer que esse sim é o pior lugar do mundo. Homens se matam, homens perdem esperança, homens são pessimistas e estão se degradando. Claro que com um humor negro malicioso e de certa forma deliciosa. E creio que aí que mora o fascínio pelos filmes desses irmãos. São tão geniais na preparação de suas cenas, no desenvolvimento correto dado a seus personagens, nos diálogos ditos de maneira dual e tirando daí a essência de uma pessoa, é a marca de seu trabalho.

A narração off de Tommy Lee Jones crava de vez a genialidade desses dois e a essência de todos os seus grandes filmes. Bem como o final desse filme, que de uma vez por todas, sela a situação caótica, onde oniricamente, Ed Tom Bell se dá conta de que os tempos são outros, e que sua impotência diante de tudo isso o tornou fraco. Por isso se aposentou.

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