, ,


Tropas Estelares (Paul Verhoeven, 1997)

A amarga piada de Paul Verhoeven

Por Rafael Lopes

O tom que Tropas Estelares segue até o fim é o de ironia. Vinte e quatro quadros por segundo de pura ironia. Parodiando o cinema de propaganda que tanto fez escola durante a Segunda Grande Guerra, o filme se passa num futuro high tech onde humanos sucumbem ao poder de insetos. A maior pergunta – e maior ironia do filme – é acerca da inteligência de ambas espécies: qual a mais inteligente?

Levando em consideração que a violência é um porco estado de espírito, que se baseia por emoção e não razão. Um planeta numa galáxia milhões de anos luz de distância da terra oferece um perigo que não é tão esclarecido pelo filme. Isso não é um fator negativo, mas um pretexto para o diretor rir e nos fazer sacar a piada. No universo, com uma constante movimentação de corpos celestes, claro que um asteroide um dia entrará em rota de colisão com a Terra, mas por a culpa em seres de um planeta presente numa galáxia longe da nossa é chegar muito longe.

A desculpa para enviar milhões de soldados para Klendathu é a de destruir o planeta em nome da nossa raça. Lá o terreno é devastado, habitado por criaturas violentas e que não demonstram o menor resquício de inteligência. O fato é que tudo funciona a partir de uma propaganda, que incentiva desde o alistamento até a ida ao desconhecido planeta para matar ou morrer. Tudo por um bem maior. É onde entra o dedo de Verhoeven e seu peculiar humor. Não que o filme trate-se de uma comédia, mas a concepção de tudo vem de uma ironia até engraçada.

Seduzidos pelas palavras dos professores, pelas belas campanhas interativas feitas pela mídia para atrair os jovens ávidos por adrenalina, a federação se mostra uma grande manipuladora. Faz com que tudo se pareça um jogo de trocas: as pessoas se alistam, vão lutar e em troca ganharão sua cidadania. Seria mesmo preciso isso para ser considerado cidadão? O diretor não quer saber de dissertar a respeito, fazendo com os soldados se questionem de suas reais intenções ou de que matar outra espécie não é algo bom. O que ele faz é justamente o contrário.

Explora com gosto os limites do fanatismo patriótico muitas vezes exageradamente idiota. É até fácil caracterizar os uniformes e os atos dos soldados com os nazistas, numa clara evidencia de se tratar de um estudo óbvio: teríamos mesmo nos desligado dos traumas do passado carregado por fascismos? É só reparar que se trata de uma guerra sem motivo, uma guerra inútil, causada pura e simplesmente para atestar o poder bélico dos seres humanos. Mas o que difere os seres humanos dos insetos? São irracionais, violentos, impulsivos e burros. A grande sacada do diretor é exatamente essa.

E ele não é picareta, usando e abusando dos efeitos especiais, da absurdamente maravilhosa trilha sonora de seu parceiro Basil Poledouris – que é militarizada e inspiradora propositalmente – para maquiar suas críticas. Ele solta todo seu veneno nos diálogos ditos com total sarcasmo fantasiado de canastra por seu elenco escolhido a dedo por atores bonitos e que não interpretam nada. Até nisso o diretor imprime seu deboche, e os atores parecem se divertir com a situação.

E ao longo da fita, vão oferecendo uma visão sensacionalista e hipócrita acerca de tudo o que vai acontecendo e funcionando como catalisador para o enredo. E o melhor é que tudo acontece sem a menor preocupação com as usuais demagogias presentes em filmes de guerra. Não a toa, o diretor põe mórmons mutilados no que seria uma igreja dentro do país dos insetos; faz dos sentimentos joviais – como primeiro amor, que surgiria como causa de luta em outros filmes – mero detalhe, mostrando que na real nada disso realmente importa; enche as cenas com frases de efeito num tom de gozação impressionante e consegue assim cutucar com gosto muitas parcelas da sociedade.

Vai ver por isso um filme que se passa num futuro tão distante e feito há tanto tempo consiga se manter ainda tão impressionante e autentico. E não me refiro a efeitos especiais – que são perfeitos até hoje. Mas me refiro ao poder de persuasão que Verhoeven tanto brincou ser parodiado com tanto efeito que até hoje incomoda.

Comments

Leave a Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments