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O Grande Gatsby (Baz Luhrman, 2013)

“Vi que o romance, que na minha maturidade era o meio mais poderoso e flexível de transmitir o pensamento, a emoção de um ser humano para o outro, estava ficando subordinado a uma arte mecânica e vulgar que, fosse nas mãos dos mercadores de Hollywood ou nas dos idealistas russos, era capaz de refletir apenas o pensamento mais banal, a emoção mais óbvia. Era uma arte em que as palavras estavam subordinadas às imagens, em que a personalidade era desgastada até a inevitável marcha lenta da colaboração.”– F. Scott Fitzgerald. [Trecho do livro “Crack-Up”]

Fica evidente no discurso do autor d’O Grande Gatsby sua descrença em relação à sétima arte. Possivelmente, Fitzgerald detestaria todas as adaptações de sua obra e abominaria, sobretudo, a versão do australiano Baz Luhrmann. Se o escritor norte-americano pensava que as imagens do Cinema escravizavam as palavras da Literatura, iria se horrorizar com esta nova adaptação, que torna muitíssimo imagético as descrições de Nick (aqui, interpretado por Tobey Maguire). Não só isso, mas Luhrmann imprime estilo próprio no filme e é capaz, ao mesmo tempo, de captar bem a aura do livro.

O diretor, na verdade, encontra-se no máximo de seu pretensiosismo. Ele não submete a forma a favor do conteúdo, mas escolhe o conteúdo de acordo com sua forma. Deu certo – diferente de Austrália, em que ele fez o contrário. Encontra, n’O Grande Gatsby, tudo o que precisa para explorar seu estilo com fluidez. As festas pomposas dadas por Gatsby (Leonardo DiCaprio) são sempre filmadas espalhafatosamente: a câmera de Baz capta todas as pequenas nuances, das bóias em forma de zebras na piscina às figuras exóticas presentes, banhando tudo com uma frenética música pop. Visual e musicalmente, seu estilo é espalhafatoso e histérico. Há uma explosão de cores e alegrias para evidenciar toda a grandiosidade das festas dada por Gatsby. Tampouco Luhrmann é leviano: quando necessário, muda o tom, abaixa a trilha e até mesmo troca o filtro – como nas belas, porém breves, sequências de guerra. O melhor exemplo disso é a diferença que há entre as festas do começo e do meio do filme: as primeiras, cheias de glamour, ao passo que aquela à qual Daisy (Carey Mulligan) comparece (e não gosta tanto) é permeada por um silêncio musical. Toda a loucura presente na casa parece não contagiar nenhum dos personagens nesta sequência. Além disso, o diretor vale-se da sua construção fantasiosa para ilustrar a narração de Nick (deveras exagerada durante várias passagens do livro), criando cenas como a da introdução de Daisy ao filme.

Assim, o australiano acaba fazendo uma crítica à sociedade do consumismo desenfreado, inconsequente e de hábitos alienados. Seu estilo, portanto, serve ao propósito da crítica de Fitzgerald na obra original: através de figurinos extravagantes e uma direção de arte purpurinada, Baz escancara a futilidade de alguns personagens (sendo Myrtle o melhor exemplo disso), tornando-os verdadeiras caricaturas em meio a um cenário exagerado na medida certa. São pessoas ocas como os tabloides que elas leem. Não obstante, periga se tornar vítima de sua própria crítica. Toda a embriaguez de seu Cinema pode ser usada contra ele, uma vez que, ao abusar de todo o exagero cênico, ameaça cair numa contradição ideológica e virar alvo da crítica tecida pela própria obra – o consumismo desenfreado dentro de uma sociedade vazia e superficial (Hollywood, afinal). Seria Luhrmann um farsante? Exagero. Porém, fica claro quando busca apenas o estilismo, sendo algumas escolhas visuais mero fruto de sua vaidade e prepotência, já que servem apenas a si mesmas.

Contudo, diferentemente da frenética narrativa de Moulin Rouge (filme que o diretor tenta emular constantemente ao longo da projeção), de 2002, que funcionava sempre organicamente, em O Grande Gatsby há um grande atropelamento narrativo em muitos momentos. A montagem acelerada é quase sempre funcional, mas acaba por não desenvolver tão bem quanto poderia o romance dos protagonistas, por exemplo. Dessa forma, o roteiro preocupa-se muito em adaptar fielmente algumas passagens do livro que acabam soando deslocadas no filme por falta de profundidade, em desfavor de um maior desenvolvimento dos conflitos dramáticos da trama.

No roteiro, escrito por Craig Pearce e pelo próprio Luhrmann, Nick é um escritor que começa a escrever um romance sobre seu vizinho, Gatsby. Convidado para uma das festas paradisíacas na casa dele, o protagonista passa a desenvolver uma amizade intensa e dúbia com Jay Gatsby. Em pouco tempo, descobre que o milionário teve um romance, cinco anos atrás, com sua prima, Daisy, casada com Tom Buchanan (Joel Edgerton). Assim, Nick serve de ponte de reencontro entre o casal de outrora.

Justamente nesse romance reside a faceta mais fascinante do personagem criado por Fitzgerald. Do alto de seu posto, Jay Gatsby observa todo o seu império se concretizando em forma de festas. Para ele, porém, isso não basta. Há uma peça fundamental: Daisy. Poucos minutos depois, vemos o personagem suado e aflito pela simples presença de sua amada. Por trás de toda a capa soberana e misteriosa de Gatsby, há uma fragilidade latente, encarnada perfeitamente por Leonardo DiCaprio. É, sobretudo, um homem apaixonado e que constrói um império inteiro apenas para sua amada.

Falamos, então, dum filme predominantemente sobre o passado. Gatsby acreditava na luz verde, no “orgástico futuro”, todavia com um elo no passado. Voltamos, como promove a reflexão final da obra, constantemente ao pretérito. Afinal, tudo o que Jay Gatsby opera é numa tentativa de evocar um pretérito glorioso. Ou mais: tudo que ele é, no presente, para os outros, é seu passado – todos sabem que ele estudou em Oxford, mas desconhecem seu emprego atual. Perceba que, nos flashbacks, o filtro adotado imprime um tom de ouro e nostálgico, a fim de valorizar os tempos idos.

Dando vida ao personagem, Leonardo DiCaprio capta todas as nuances de Gatsby e confere muitíssimo bem a aura misteriosa necessária para compor a figura de Jay, ao passo que não deixa de transmitir toda a vulnerabilidade presente no milionário de Long Island. Enquanto isso, Carey Mulligan absorve o espírito extrovertido e encantador de Daisy, com todo o seu ar inocente e sonhador. Mostrando evolução como ator, Tobey Maguire expõe a personalidade observadora e deslumbrada de Nick ao mesmo tempo em que parece ser sempre um dos mais racionais dentre os personagens.

Com figurinos deslumbrantes, direção de arte criativa e uma trilha sonora pop eletrizante (que serve muito bem à narrativa), Baz Luhrmann adota o ponto de vista fantasioso e exagerado de Nick (e nisso o 3D contribui para a imersão na mente do personagem) para contar a história trágica de Jay Gatsby. O homem que viveu para remontar seu passado. O homem que virou mito e manchete de jornal. O homem que, no fim, era uma criação de Nick, da sociedade e de todos nós: uma figura extraordinária, daquelas que servem de assunto para fofocas e mais fofocas. As mesmas pessoas que visitavam sua casa são as que o ignoraram após seu triste destino. De fato, Gatsby só ficou na memória de Nick. E na dos espectadores que puderam ler as envolventes páginas de Fitzgerald ou assistir à explosão visual de Luhrmann.

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