, ,


Tempos Modernos (Charles Chaplin, 1936)

Aula de cinema provocador

Por Rafael Lopes

Em se tratando de humor ácido travestido de pastelão inocente, Charles Chaplin deu ao mundo os melhores exemplos. Em Tempos Modernos, ultimo filme onde o vagabundo – seu personagem símbolo – aparece, é também um exercício dessa característica que ele tão bem transformou em uma marca artística própria. A começar pela primeira cena. Um rebanho de ovelhas e num corte, pessoas executando o mesmo movimento. Sinais de tempos que são outros. O homem, que tanto domesticou, acaba sendo domesticado, dominado, e que ao som de um apito ou sino, muda o que está fazendo, que ao escutar a ordem de seu pastor ou dono, executa com presteza muitas vezes escravista o que é mandado. A piada com os tais tempos modernos estão apenas começando.

Mas ele não pára por aí. Chaplin como grande resistente da chegada do som ao cinema (ainda mais ele, que desenvolveu a técnica de fazer imagens valerem mais que qualquer som) ainda aproveita a oportunidade para tirar sarro do futuro do cinema. É só reparar ao som perfeito saído na fábrica, vinda do chefe tratando com desdém o pobre operário obrigado há todos os dias realizar movimentos e mais movimentos que em uma avalanche vai contagiando todo um grupo de outros operários a trabalhar mais e mais e mais. Muito interessante, e porque não genial, tecer essa relação? É colocando a voz do chefe ditando ordens e regras que ele indica seu poder, seu domínio, onde seu inglês perfeito cala a voz de seus operários que são mudos todo o tempo. E já trazendo para o cinema, Chaplin faz sua crítica mais pesada a esse avanço, uma vez que iria atropelar artistas como ele, que já haviam conquistado tanto com o cinema mudo.

É então que ele usa o artifício do som como um dos vilões de seu filme. O som mostra quem manda, o som é divertimento dos mais ricos, o som está ali indicando a pancada, o latido do cão, o progresso, a degradação, a fisiologia do homem cada vez mais reprimida, o próprio homem que perde voz e se entrega. O som é utilizado como argumento de crítica e simbologismo de desumanização e avanço da tecnologia. Até porque, nenhum avanço tecnológico existe pura e simplesmente para ser bom o suficiente. Máquinas controlam a quem deveria controlá-las, vide o surto que o operário interpretado por Chaplin tem em determinado momento do filme, ou quando elas existem puramente para tomar o lugar do próprio homem, como a máquina que dá de comer ao operário, onde o dono da fábrica tem a opção de escolher manter seus homens trabalhando até mesmo no único momento que lhe resta para descansar e ser humano literalmente.

E pior é ver valor ser dado à uma máquina e não a uma pessoa. Quer melhor registro de desumanização? É o que acontece quando a máquina pifa e a cobaia humana escolhida aleatoriamente sem o mínimo de respeito acaba sofrendo a ira da tecnologia. E é justamente sobre desumanização que Chaplin discursa durante Tempos Modernos. Ele quer tentar fazer entender como esses avanços tão constantes podem chegar a nos fazer esquecer que papel desempenhamos em uma sociedade e qual nossa real importância dentro dela. E claro, tudo isso com um tom cômico, trágico, marca de seus melhores trabalhos. O operário e seu par romântico, vivido pela bela Paulette Goddard, são as vítimas desse caos. Ele por ser operário, pobre, despreparado – ou nesse caso, só sabe fazer uma coisa, crítica à esse modelo de empregabilidade do capitalismo, onde só os preparados sobrevivem – e ela, por ser pobre e esquecida pelos deuses que melhoram o mundo e suas contas bancárias, esquecendo das pessoas.

Outro belo exemplo da desumanização que a tecnologia trás. Mas Chaplin não quer com isso parecer subversivo. Suas críticas não estão ali para causar revolta, mas estão ali para apresentar um ponto de vista e assim instigar um debate reflexivo levantando essas questões. Chaplin mostra que quer na verdade debater questões como a da empregabilidade no meio da crise, mostrar que por mais que o mundo se desenvolva, há de se ter uma forma de fazer a humanidade acompanhar essa evolução, para que máquinas não ocupem e não desqualifiquem e nem substituam de forma tão devastadora o trabalho de um homem. O objetivo aqui é fazer a arte gritar essa ideia, de valorizar a pessoa como pessoa, não como chefe superior e operário subalterno.

Essa relação de desvalorização bem colocada nas desigualdades colocadas no filme. Chaplin e Paulette imaginando uma vida melhor, um lugar melhor para viverem logo após ver um casal que é bem sucedido em termos financeiros se mostrarem tão felizes, e essa felicidade espelhada em suas feições quando mesmo em uma casa caindo aos pedaços, se mostram tão ou mais felizes que aquele casal. É com eles dois que Chaplin tece também um perfil da população americana em meio à crise que quebrou o país. Fervem aí greves repentinas, buscas incessantes por emprego, ilusões quanto a uma vida melhor (bem ilustrada na cena onde Chaplin e Paulette passam a noite numa loja de departamento) e por aí vai.

O fim é otimista? Você quem deve dizer, mas pode ser que não seja. Há ali um pessimismo escondido debaixo da aura esperançosa que o diretor deixa, naquele maravilhoso take final, que ainda representa uma despedida do personagem que ele eternizou: Carlitos. Mas nas falas dele, estão os dizeres que vão continuar tentando, mas foi isso que fizeram durante todo o filme, e acompanhado das tentativas, as desgraças. Assim como foi com sua carreira, que acabou se entregando ao som, mas ainda assim criticando-o acidamente em filmes como O Grande Ditador, o que lhe rendeu até mesmo o exílio, Chaplin mostra que mesmo que se resista, ainda seremos engolidos pelo futuro e isso nos transformará em animais dentro de uma selva, onde os mais fortes sobreviverão. Ele está vivo até hoje.

Comments

Leave a Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments