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Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954)

Voyeurismo a lá Hitchcock

Por Rafael Lopes

Naquela época, o set que recriava a vizinhança de L. B. Jeffries (James Stewart) era o maior já construído pela Paramount, e de fato se justifica. Prédios, apartamentos, todos construídos com o máximo de detalhes para que fossem o mais realistas possíveis. Todas as cenas – com exceção de umas poucas – foram feitas tendo como ponto de vista a janela de nosso protagonista, com direito a ordens dadas pelo diretor por fones de ouvidos aos outros atores para que fizessem suas participações em suas respectivas casas. Com isso, temos uma vizinhança como qualquer outra: peculiar.

Uma rápida passada por cada casa é como Alfred Hitchcock inicia uma de suas maiores obras primas, mostrando a linda bailarina, o músico compondo suas tristes melodias, a mulher que vive só, o casal que não se sabe porque dorme do lado de fora de casa, a artista trambiqueira, o casal fogoso e claro, o repórter Jeffries, obrigado a ficar em casa durante 7 semanas com a perna engessada graças a um acidente automobilístico, o qual ele fotografava. Em casa, ele poderia ficar espiando as belas curvas da bailarina, que sempre aparece com muita pouca roupa, ou ficar prestando atenção nas loucuras da mulher solitária ou prestar atenção no casal fogoso, mas ninguém ali lhe chama mais atenção que seu vizinho da frente. Ele chama tanta atenção que nem mesmo sua namorada, a hipnotizante Grace Kelly, ele consegue notar.

Um grito, saídas misteriosas pela madrugada, algo enterrado no canteiro de flores, tudo começa a chamar a atenção de Jeffries, que começa uma obsessiva investigação da vida do cara, suspeitando se tratar de um caso de assassinato. Pronto, é o que o gorducho mais amado do cinema precisa para nos amarrar a um dos suspenses mais deliciosos da história. O diretor com sua famosa câmera em primeira pessoa, dando toda a visão que temos da vida alheia, nos convida a sentar ao lado de Jeffries para bisbilhotar.

Há um tanto de verdade nessa situação toda. Quem não procuraria algo pra fazer quando se está imóvel? É o que ele faz, com seus binóculos e lentes objetivas, o fotógrafo, que sempre precisou dar uma visão de algum ocorrido, nos oferece a dele acerca de uma suspeita. E toque Hitchcock entra, começa a manipulação que só ele pode fazer. Como não sair brincando com o perigo, fazendo-o caminhar lado a lado com o crescente medo, saindo dos poros do personagem e do publico, e construir assim uma história aparentemente simples se desenvolver numa teia de situações cabeludas?

Obviamente não há nenhuma prova escancarada, pois, como estamos sempre no quarto de Jeffries estamos contando apenas com o que ele tem de “provas”. Nesse ponto, Hitchcock aperta a ferida causando um misto de duvidas e certezas, onde o público ganha espaço para literalmente interagir com o filme. A começar pelo julgamento de valor que certamente entra em questão: porque diabos o cara quer bisbilhotar a vida alheia? As duas mulheres que acompanham nosso herói são como o diabinho (Grace Kelly, a namorada do Jeffries, no filme chamada de Lisa) e o anjinho (Thelma Ritter, que no filme interpreta a mulher que cuida de Jeffries, Stella).

Lisa encoraja as espiadas na casa do vizinho, e ainda ajuda na interpretação das informações colhidas; do outro lado, Stella surge como a parte sensata, que estaria ali disposta a tirar da cabeça de Jeffries essa vontade maluca de espiar a vida alheia, e ainda quando ela diz que pressente o perigo naquela casa, é como um álter ego do público, pensando pelo público, e que assim como o público, acaba cedendo à curiosidade e participando da investigação toda. Lisa ajuda por se tratar da forma encontrada por ela de se mostrar mais do que a bela mulher de bairro rico que não repete a roupa – e de fato não faz; Stella, como já citado, é a personificação do público dentro do filme, que está sempre ali aconselhando e avisando, sabendo das consequências que podem acontecer, e isso é só mais uma demonstração da capacidade única de Hitchcock de literalmente dar vida a um filme. Isso não se dá apenas pela participação de Stella, mas como um todo. Por exemplo a trilha sonora não ser lançada tão diretamente, é sempre o vizinho compositor dando o tom; ou a edição funcionar perfeitamente como órgão desse corpo simulando o cansaço, o nervosismo, o sono e até mesmo a loucura em certos momentos.

 Janela Indiscreta consegue ser um organismo vivo e consegue por meio da direção magistral do mestre, nos passar um mosaico de sensações e situações tão próximas da realidade que ganham uma visão tão perfeitamente manipuladora que em muitos momentos do filme gelam a espinha, causam risada e surpreendem da maneira mais envolvente possível. Em poucas palavras, sem dúvida, uma obra prima genial em todos os detalhes.

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