O Lugar Onde Tudo Termina (Derek Cianfrance, 2012)

131

(Contém spoilers.)

O diretor norte-americano Derek Cianfrance, em seu segundo longa-metragem, impressionou público e crítica com um retrato doloroso dos relacionamentos românticos. Criou-se, pois, enorme expectativa para o segundo filme do diretor. Com um tom levemente mais otimista do que seu trabalho anterior, Cianfrance não decepciona: O Lugar Onde Tudo Termina aparenta ser um belo filme sobre o perdão. Mas será que é, de fato, sobre isso?

No primeiro atot Luke (Ryan Gosling) é um motoqueiro que larga o trabalho no circo para se fixar e cuidar de seu filho com Romina (Eva Mendes), por ele descoberto um ano após seu nascimento. Para tentar sustentar a criança, começa a assaltar bancos.

Luke faz isso por mera sobrevivência. Suas intenções são as melhores. Entretanto, não parece haver saída para o personagem. O microcosmo de Cianfrance não oferece alguma redenção – e o destino do personagem é dos mais trágicos. O perdão, portanto, não existe. Não neste contexto. Tampouco parece haver escape para o policial Avery (Bradley Cooper), uma vez que enfrenta, além da pressão para sucumbir à corrupção, o fardo da morte de uma pessoa em suas mãos. Mais: alguém com filho e, teoricamente, uma namorada.

Um ciclo, assim, se inicia. Neste sentido, Cianfrance parece buscar algo maior, flertando com filmes como “Shotgun Stories” e “Marcas da Violência” ao ir atrás de uma História, e não apenas uma história. É, portanto, uma espiral de violência, ódio e vingança muito maior do que aparenta. Uma morte no passado ecoa no presente de maneira brutal: o filho de Luke parece sofrer as consequências de ter crescido sem um pai; o filho de Avery também aparenta ter seus problemas provenientes do sucesso de seu pai (um “herói”) e, consequentemente, a relação pouco afetuosa criada entre os dois.

E, aí sim, O Lugar Onde Tudo Termina se revela, definitivamente, um filme, sobre perdão. O ciclo que poderia resultar num desfecho sangrento é finalizado com um ato de redenção, em que o perdão se sobressai. Ou seja, muito diferente do final de Namorados Para Sempre, o primeiro filme do diretor, a conclusão deste filme encontra luz no fim do túnel. E demonstra ser um filme, também, sobre pais e filhos.

Com um olhar intimista, acompanhando os personagens com sua steadicam, Derek Cianfrance capta a ação com um realismo melancólico. Banha a primeira parte do filme com as cores estouradas do parque de diversões, que contrastam diretamente com o clima sóbrio e cruel da obra, bem como abusa de iluminações naturais em momentos catárticos, como o que resulta na foto da família. Da mesma forma, adota uma câmera na mão para conferir sempre realismo à ação, ao mesmo tempo em que investe pontualmente em movimentos de câmera, no mínimo, curiosos, como os que acompanham as “corridas” de motos.

Assim, o diretor oferece espaço suficiente para os atores desenvolverem bem os seus personagens. Ryan Gosling incorpora, com seu semblante carrancudo, Luke, um homem cujas circunstâncias e o amor a seu filho o levam a praticar atos que provavelmente não cometeria em outra situação. Ora, a prova maior de que ele é um completo inexperiente no que faz são os agudos/gemidos soltados por ele ou o vômito depois do seu primeiro assalto. Já Bradley Cooper surpreende na pele dum policial íntegro que, no entanto, se vê perturbado psicologicamente após matar uma pessoa que é, afinal, um ser humano como ele. Dessa forma, o ator consegue muito bem transmitir o rosto atordoado e confuso de Avery, confrontado, também, pela corrupção da polícia.

Contando com personagens tridimensionais, Cianfrance dirigiu uma obra humanista e repleta de pretensões grandiosas, muito maiores que seu trabalho anterior (este, muito superior). Não alcança todas, é verdade. Ainda assim, o fim do terceiro ato demonstra quão sensível e promissor é esse diretor norte-americano. E que venham outros projetos feito este.

One Comment

Leave a Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *