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Caminhos Perigosos (Martin Scorsese, 1973)

Criado em Little Italy, Nova York, Martin Scorsese é um diretor norte-americano de forte formação religiosa. É notável quão marcante é a religiosidade em toda sua filmografia. Em Caminhos Perigosos, ele não se desvia disso. Ao mesmo tempo, porém, faz um retrato do habitat cruel e hostil que o cercou, sendo muitos dos personagens do filme amigos seus de infância e adolescência.

Não por acaso, o ambiente é quase um personagem no filme. Para recriá-lo, a direção de arte é hábil ao passar a ideia de organização sistemática nos espaços frequentados pelo tio do protagonista, ao passo que o bar onde se passa grande parte do longa é sujo e banhado por intensa luz vermelha, dando a ideia de algo pecaminoso e moralmente errado. Os códigos de ética e moral, com os quais Scorsese cresceu, são, aqui, fortemente debatidos, sendo a proibição de drogas no local um bom exemplo disso. O bar, aliás, é muitíssimo bem desenvolvido pelo roteiro, escrito pelo próprio diretor, juntamente com Mardik Martin, uma vez que várias situações são inseridas na obra para reforçar o ambiente violento e decadente ali instaurado. Assim, o local torna-se palco de assassinatos no banheiro, brigas violentas de casais, ou, no fundo (dando a ideia do quão banal é aquilo tudo), brigas repentinas de baderneiros.

É evidente, portanto, que existe um motivo forte para o desenvolvimento do ambiente, tal qual o discernimento entre a fineza da “máfia” e a grosseria dos “gangsteres”. Michael, interpretado por Harvey Keitel, é uma figura tridimensional, cuja personalidade dócil nos conquista facilmente. Isso não é à toa, uma vez que parece buscar agir como um apaziguador do ambiente em que vive, cumprimentando a todos e sendo amigável, características rapidamente estabelecidas pela brilhante introdução filmada em super 8, ao som de “Be My Baby”, do grupo The Ronettes. Muito disso parte, na verdade, do seu espírito religioso e culpa católica, que quase o obrigam a cuidar de tudo e todos. Afinal, como diz o próprio protagonista: “Você não paga seus pecados na igreja. Você paga nas ruas. Você paga em casa. O resto é besteira e você sabe disso”. Assim, embora ele encare Johnny Boy (Robert De Niro) e Teresa (Amy Robinson) como pessoas queridas, são eles também suas “penitências” – sobretudo o primeiro. Dito isso, ele se esforça para sair do mundo em que se encontra, chegando a sugerir, num momento, que não pertence totalmente a ele, ao passo que tem de abdicar das presentes amizades na busca por uma “vida melhor” – a jornada de um homem tentando fugir do “meio” onde vive. Há de ser destacar, também, o desempenho de Keitel, passando muitíssimo bem todos os conflitos internos do personagem, assim como seus momentos de raiva e, claro, descontração.

Em contrapartida à aparente serenidade de Michael, Johnny Boy surge como uma figura histérica, mentirosa, bem-humorada, perigosa, imprevisível e profundamente doentia. É uma verdadeira bomba-relógio ambulante, de personalidade cínica e debochada, não respeitando, tampouco temendo, seus colegas. Os figurinos trajados pelo personagem nos dizem exatamente isso: suas roupas de cores vivas (como amarelo) e chapéu coco denotam alguém realmente fora do padrão estabelecido em seu meio. De Niro encarna brilhantemente o personagem, repleto de trejeitos, andando torto e exibindo um semblante sempre alegre. Além de sua figura espaçosa ser instantaneamente cativante, sentimos, no fundo, pena do personagem por ser, no fim das contas, alguém carente e dotado de inocência, por incrível que pareça. Eis o porquê da amizade tão forte entre ele e Michael, demonstrada por cenas como a da “briga” com lixos, assumindo não somente o sentimento de amor (igualmente forte), mas quase religioso – por motivos que expliquei acima.

Na trama, Michael é um devoto católico que auxilia Johnny Boy a se livrar de, ou pelo menos adiar, problemas de divida, ao passo que se apaixona pela prima deste, Teresa, uma garota problemática. Exergando-a assim, o tio de Michael, um mafioso poderoso, propõe que ele abandone tanto ela quanto seus atuais amigos para começar a administrar um restaurante. Embora a trama seja o fio condutor da história, Scorsese investe uma boa parcela do filme para desenvolver, além dos personagens, o universo onde habitam – ligado diretamente com o ambiente que os cercam. Dessa maneira, acompanhamos as “aventuras” dos personagens, tanto secundários quanto principais, vendendo drogas, indo ao Cinema, buscando dinheiro e, sobretudo, bebedeiras no bar, desde conversas triviais até festas. Isso tudo torna o mundo daqueles personagens não só mais crível como muito mais acessível, uma vez que conhecemos seus cotidianos e indiosincrassias. Consequentemente, obtemos, de momentos assim, diálogos brilhantes, como o da piada envolvendo a rainha, um sobre um xingamento “misterioso” e reflexões bíblicas absolutamente apropriadas ao contexto.

Acusado de abusar da violência desnecessariamente, Martin Scorsese utiliza o recurso, intrínseco ao filme, de forma orgânica e extremamente real. E é interessante observar como a violência se manifesta na carreira do diretor. Diferente da maioria dos filmes, ela não é construída gradativamente, através da tensão. É, pelo contrário, absolutamente imprevisível e repentina. Foi assim que o nova-iorquino a viu se manifestar, nas ruas, sem avisos. Assim, em Caminhos Perigosos, quando menos percebemos, estamos diante duma briga de bar que começou sem cerimônia alguma. A prova maior disso, contudo, é o clímax, de grande violência, absolutamente imprevisível e completamente repentino. Afinal, a realidade não é assim mesmo?

É impossível falar do clímax sem falar do talento de Martin Scorsese ao conduzi-lo com tamanho destreza: o rock’n’roll tocado na sequência, o sangue, a sujeira na tela, e a câmera quase anárquica conferem urgência e visceralidade ao momento. Esses elementos citados, aliás, são constantes no filme: ao lado de Kent Wakeford, o diretor de fotografia, Scorsese não tem medo de sujar a tela, granular a imagem e reduzir as luzes, tornando Nova York uma cidade sombria, com as ruas tão podres quanto as de Taxi Driver. Já a sua câmera parece assumir um tom anárquico, com leves tremidas e vários closes bruscos em símbolos religiosos, por exemplo, ou na cena da luta no bar, dando a ideia de imperfeição e, repito, anarquia daquele mundo e, claro, seus personagens. Ainda há momentos de particular brilhantismo, como a câmera colada no rosto de Keitel na sequência da festa, passando a tontura do personagem; ou a câmera que baila no bar, mostrando todos os personagens, sempre mantendo um distanciamento de vergonha. Não obstante, a escolha das músicas, quase sempre tocadas na jukebox, é brilhante por conferir uma ironia musical ao ambiente, visto que são baladas sessentistas, em sua maioria bastante alegres.

Confirmando as influências estéticas de Jean-Luc Godard, Scorsese finalizou Caminhos Perigosos como um filme extremamente pessoal, com eventos ocorridos com seus conhecidos: os personagens encontram-se não mortos, o que lhes seria melhor, mas sim “humilhados”, nas palavras do próprio diretor. Eis o pior para eles, sobretudo, para Michael. Muito mais que moralista, a conclusão é real e forte: independentemente da sua conduta moral e ética, as consequências da transgressão da lei são severas. Os personagens terão que pagar, finalmente, pelo seus pecados. E, definitivamente, não será nas ruas.

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