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Lua de Fel (Roman Polanski, 1992)

Polanski disserta sobre o tal “amor”

Por Rafael Lopes

“Love is just a lie made to make you blue”Love Hurts – Nazareth

No início o amor é tudo rosas. Pra tanto, o que temos é um casal nascendo em Paris, o melhor lugar do mundo para viver uma paixão, e o aspirante a boêmio e escritor revolucionário Oscar (Peter Coyote) descobre que as charmosas ruas parisienses, suas mulheres belas e a sua cosmopolita característica irão render a ele não só uma grande paixão, ardente, engraçada e trágica, como também entender mais sobre si e sobre as outras pessoas, aprenderá que não está só no mundo, e que pode sim, ao contrário do que imagina, tornar-se escravo. Escravo de Mimi.

Quando se completa sete anos de casamento, há de se comemorar de uma maneira diferente e especial, que seja romântica e traga bons momentos e que engrandeçam a vida amorosa de um casal. Nigel (Hugh Grant) e Fiona (Kristin Scott Thomas) estão lá. Mas o que se vê não é um casal em busca de comemorar uma data gloriosa, já que 7 anos é bastante tempo. Mas sim, entender como se deixaram estagnar e ainda assim não encontrarem saída para seus dilemas pessoais como casal. O que eles procuram na verdade é um reencontro, e que possam fazer valer a pena essa viagem, fazendo seu amor voltar a florescer.

Seu caminho é cruzado por Mimi (Emmanuelle Seigner), a bela e enigmática Mimi. Ao socorrerem ela, acabam envolvendo-se com Oscar, seu marido. Preso numa cadeira de rodas, ele precisa relatar à Nigel, que cresceu os olhos para Mimi numa noite, tudo o que se passou no seu relacionamento, para que ele pudesse ver suas verdadeiras intenções com a moça, e que não se arrependesse depois. Mas na verdade, aquilo serve mais como terapia de relacionamento, uma vez que (sem sucesso) Oscar tenta dizer a ele como reacender o fogo com Fiona. Cego por Mimi, tudo que Nigel quer é ter aquela mulher. O homem é fraco.

E desde Adão e Eva, onde Eva, nascida da costela de Adão, conseguiu dominá-lo de tal maneira que foram expulsos do paraíso (e isso rendeu às mulheres o ingrato estigma de pecadoras por tanto tempo) é distorcido aqui. A mulher é forte e dominadora, mas isso só quando se sente ameaçada. O filme segue essa linha de raciocínio. As mulheres aqui aparentam fragilidade, ser submissas, aparentam ser controladas, mas quando menos se espera, enquanto ainda se pensa em agir, elas já estão descansando. Podem fazer sua vida ir do céu ao inferno, mas claro, se você fizer por onde.

A história de Oscar e Mimi começa como o poema de Oswald de Andrade:

Amor:
Humor.

E que humor. Uma relação saudável, de duas criaturas enamoradas, descobrindo o melhor da vida nas quatro paredes. Seguem seqüências de um humor sem compromisso, de gags divertidas e claro, acompanhadas de muita sensualidade. Inesquecível a antológica cena em que Mimi dança para Oscar. Em algum sentido, Mimi completa Oscar, e ele gosta disso. No início pensamos que isso irá durar para sempre. Tudo o que podem fazer para apimentar a relação eles fazem, mas uma hora isso começa a se tornar irrelevante. O amor acabou?

Brigas, discussões, tapas, poucos beijos, muito ódio e ternura disfarçada. O amor acabou? Em um dos momentos mais incríveis do filme, ela diz que vai embora e ele pouco se importa. Mas antes que ela saia, logo volta correndo e se declara, dizendo que ele é o grande amor de sua vida. O sentimento antes belo torna-se escravidão. Ou não. O relacionamento deles começa a ruir. E ele se achando esperto , logo trata de dar fim a isso, para que ainda saia ileso. Torna a vida dela um inferno, que inferno, com direito a trocar o nome dela na hora do sexo e a bater na sua cara (ato mais repugnante do mundo a meu ver), mas quando chega nesse nível, algo está fora do controle. A solução que ele toma é mais drástica ainda, a manda embora simplesmente para se ver livre dela. O que ele não sabe é que ela jamais esquecerá.

Oscar começa a viver intensamente a vida, com várias mulheres, vários exageros, uma vida trocando a noite pelo dia, que desencadeará sua própria ruína. Um acidente e ele fica de cama. Ela volta e prova que jamais esqueceu o que ele havia feito com ela. É hora de se vingar. Oscar vai do céu ao inferno em um fade. Ela o leva pra casa, na cadeira de rodas, com o intuito de cuidar dele. Mas a perversidade com a qual ela o trata é maior do que o amor que ela diz sentir. Chegando a dançar com outro e fazendo sexo com outro na frente dele. A que ponto isso chegou ele se pergunta. Ou então, porque deixou chegar a isso.

Quando essa história é contada a Nigel, e o diretor inspirado Roman Polanski desconstruindo o amor de forma degradante e de certa forma doentia, o filme chega a seu clímax. O casal em busca de um sentido e o casal que já encontrou seu sentido e hoje é escravo disso, juntos. Quem Mimi irá escolher e qual será a reação que isso irá desencadear. O momento final é tenso, mas de tão tenso que só mostra o óbvio: o homem é fraco e o amor o torna escravo. Um roteiro forte e uma direção repleta de ironias e mensagens (a melhor delas quando Oscar fala sobre traição, levantando a mão com sua aliança), Polanski diz muito e arrasa, atingindo todas as feridas que ele quer.

Diferente da abordagem intimista que filmes como “9 Canções” deram, ou da choradeira desgraçada e açucarada dos romances modinha, Lua de Fel é um massacre psicológico. Mesmo depois do filme ainda nos sentimos incomodados com a crueza de detalhes e uma construção verdadeira de cenas que abusam de um realismo por vezes impressionante para tratar de um assunto sempre tido como belo e onírico. E ao mesmo tempo que o filme é sexy e provocante, quando transforma esse sentimento aparentemente lindo em slasher de terror, faltam reações positivas.

E se ele atinge o público com isso, certamente conseguiu o que queria mostrar. A saga de ambos casais é montada de uma maneira soberba. Belas imagens (como a do carrossel) contrastam com não tão belas e o estado de espírito das personagens, evoluindo, degradando, sendo construída, é dual e irônica. Polanski brinca com o que chamamos de amor e só mostra que isso é um produto do ódio, ódio de si mesmos. O sentimento em questão é na verdade uma busca por outra a quem possa depender para ser feliz e realizado, e sem precisar ser pessimista, isso é feito.

Com uma fotografia impressionante de bela, atuações fortes – com exceção de Hugh Grant e Kristin Scott Thomas, que não passam a energia pesada e forte do diretor, sendo apáticos e em muitos momentos sem graça – por parte de Peter Coyote e Emmanuelle Seigner, essa mostrada em sua totalidade e realmente se entregando ao personagem, e uma trilha sonora incrível (assinada pelo mestre Vangelis), Lua de Fel não chega a ser o filme definitivo sobre o amor. Mas é um dos que melhor mostrou suas implicações e conseqüências. O mais engraçado é o ar cosmopolita do filme, com várias personagens de várias partes do mundo, dizendo que o amor é universal. Irônico, não? Levando em consideração tudo o que mostrou no filme…

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