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Círculo de Fogo (Guillermo del Toro, 2013)

Se um dia, por acaso, eu passar de crítico a produtor de cinema, fixarei em meu escritório um lembrete: não entregar muito dinheiro para diretores independentes realizarem filmes-fetiches. Peter Jackson, depois de filmar a trilogia Senhor dos Anéis, adentrando no mainstream, decidiu homenagear um de seus filmes favoritos, King Kong, e deu no que deu. Agora foi a vez de Guillermo del Toro prestar sua homenagem: no caso, aos kaiju ega, uma subdivisão da ficção científica do cinema japonês do pós-Guerra, como os filmes da série Godzilla. A prova maior disso é a dedicatória nos créditos finais de Círculo de Fogo ao mestre do stop-motion, Ray Harryhausen, e ao diretor de Godzilla, Ishirô Honda.

Escrito por del Toro e Travis Beacham, o roteiro retrata um futuro apocalíptico onde a Terra é invadida e rapidamente abalada por grandes monstros da espécie Kaiju. Para combatê-los, os humanos desenvolvem os Jaegers, robôs gigantes controlados por dois pilotos cada um e interligados por uma conexão interneural – para a máquina funcionar, os soldados precisam ser compatíveis mentalmente. Nesse contexto, Raleigh (Charlie Hunnam), anos depois de perder seu irmão em combate e ir trabalhar na construção civil, é novamente recrutrado por Stacker (Idris Elba) para poder salvar o mundo, unindo-se a Mako (Rinko Kukichi) e desenvolvendo uma forte relação com ela.

Embora o argumento seja interessante, essa versão bem produzida de Power Rangers acaba recaindo em clichês imperdoáveis. Na verdade, Círculo de Fogo se baseia numa estrutura batida (embora funcional) de filmes de ação, na qual, segundo a análise de Syd Field, o primeiro ato introduz a premissa, sendo necessariamente aberto com uma sequência de ação; o segundo ato se dedica a desenvolver os personagens e retratar seus dramas; e o terceiro é o clímax e a conclusão. Um dos maiores expoentes desse “padrão” é o maravilhoso “O Exterminador do Futuro 2”. Não funciona aqui, todavia. O tal elemento “humano” (?) que muitos estão atribuindo à obra é pouco desenvolvido, ainda que, em tempos de individualismo neoliberal, seja importante uma história em que as pessoas necessitem trabalhar em conjunto para alcançar um objetivo. Embora aqui ou acolá seja esboçada alguma profundidade nos personagens, permanece-se sempre muito superficial. Na maior parte do tempo, o que observamos são discursos eloquentes e heroicos (sustentados em frases de efeito e numa trilha sonora infinita e enjoativa), responsáveis por momentos vergonhosos (“nós vamos cancelar o apocalipse!”).

São estereotipados, portanto, os personagens. Fazem-se presentes os cientistas trapalhados e divergentes em ideologia (os ineficientes alívios cômicos, que mais parecem vilões saídos dum desenho animado), o mafioso caricato, o herói resgatado para salvar o mundo, o inusitado par romântico, o sábio (e intransigente) general e, como não podia faltar, o bad boy antipático (que alcança a redenção final, claro). Nessa unidimensionalidade, observa-se um maniqueísmo previsível. Num universo onde, aparentemente, os seres humanos ruins morreram ou estão escondidos, os únicos maus-caráteres são engolidos (literalmente) pelo roteiro. Afinal, em Círculo de Fogo, predomina uma ideia de coletivismo. Os personagens são pouco profundos porque não precisam sê-lo, acredita del Toro: no fim, o que importa é mesmo salvar o mundo. Teste: qual cena lhe impressiona mais: a dos soldados sendo recebidos por todos como heróis ou o final intimista? Pois bem…

Espera-se mais do que isso de Guillermo del Toro. É curioso como o mesmo diretor do alegórico O Labirinto do Fauno seja capaz de ser tão explícito. Culpa de Hollywood? Difícil dizer. Entretanto, chega a ser irritante o didatismo: para podermos compreender o passado dos personagens, o diretor vale-se da facilidade artificial do flashback. E dá-lhe explicações, enunciadas sobretudo pelo protagonista, sobre o que está acontecendo de errado com o robô e suas missões. Por exemplo: no meio duma importante batalha, lista todos os problemas que estão ocorrendo com o robô no momento.

Não nego a engenhosidade da direção de arte, do design dos robôs e dos pilotos, tampouco dos efeitos inquestionavelmente incríveis usados para construir os monstros e os jaegers. Também não nego que del Toro filma bem as batalhas, sem a esquizofrenia dum Michael Bay. E a ação é sempre limpa, clara e bem montada. Tudo converge para tornar a obra um tanto divertida. Não o bastante, entretanto para fazer de Círculo de Fogo um entretenimento pleno. É triste notar que um filme, ao fazer nada mais do que o be-a-bá, em tempos de crise criativa em Hollywood, seja tão louvado. Talvez seja, definitivamente, o triunfo dos robôs gigantes, representando essa tendência megalomaníaca de Hollywood em achar que maior é melhor.

Tomara que, se houver uma verdadeira invasão alienígena, mirem diretamente em Los Angeles, Califórnia. Quem sabe assim a indústria do cinema norte-americano possa olhar para dentro de si e perceber a necessidade de mudança.

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