, ,


Segredos de Sangue (Chan-wook Park, 2013)

Frequentemente, diretores do mundo inteiro migram para Hollywood em experiências, no geral, traumatizantes. Há algum tempo, por exemplo, o cineasta brasileiro Heitor Dhalia se aventurou num thriller genérico norte-americano, sentindo o gosto amargo de não deter o poder do final cut – o qual fica, em alguns casos, com o estúdio. O sul-coreano Chan-wook Park, por sua vez, parece ter tido toda a liberdade possível para exercer seu ofício de autor dentro do cinema hollywoodiano de gênero, talvez por sua capacidade de imprimir sua marca ao mesmo tempo em que cria filmes comerciais. Com o roteiro de Wentworth Miller (sim, o co-protagonista do seriado Prison Break, estreando enquanto roteirista), conta a história da relação entre India (Mia Wasikowska), seu tio Charles (Matthew Goode) e sua mãe Evelyn (Nicole Kidman), após a morte de seu pai (Dermot Mulroney).

Nada mais apropriado para a obra, portanto, do que o título: Stoker. É o sobrenome da família em questão. E Segredos de Sangue é um filme sobre família. Sobre as suas ligações insólitas; sobre os conflitos entre familiares; sobre relações incestuosas. Mas, antes, é um filme de gênero(s) e fetiches. As fantasias sexuais, atrelando sexo e violência, tão presentes no seu último grande filme, “Sede de Sangue” e em toda sua carreira, são transportados para um roteiro genuinamente hollywoodiano, associando relações entre parentes ao prazer e à dor. A femme fatale, por exemplo, figura sobretudo norte-americana, aparece ali de maneira marcante.

Há, claro, um estudo psicológico em Segredos de Sangue. Não que Chan-wook Park queira oferecer soluções para seus labirintos, mas o intento é provocar o espectador, instigar o mistério. India necessita ser completada por alguém. Seu tio é, afinal, a substituição duma figura paterna. E a cena do sapato está lá para confirmar isso. Não só isso, mas a troca dos sapatos é uma ruptura com o passado e uma libertação – os seus sapatos juvenis são substituídos por calçados elegantes, tipicamente adultos. A maioridade está alcançada: é o desabrochar sexual. O coreano, porém, parece construir essas figuras tridimensionais, repleta de nuances, labirintos psicológicos, contradições, para logo depois subverter a expectativa e transformá-las em figuras quase arquétipas, unidimensionais. Há necessidade de tentar decifrar todas as ações dos personagens? Não me parece ser a ideia.

E, enquanto bom autor, Chan-wook Park sabe muitíssimo bem distorcer nossos pressupostos e transitar entre tons e gêneros diferentes, nos surpreendendo e brincando com nossas esperanças. No início, o diretor adota um suspense hitchcockiano. Nós não sabemos o que está acontecendo, tampouco os personagens. Ainda assim, parece sempre haver algo muito estranho naquela casa. A câmera capta pequenos detalhes que impõem uma agonia constante ao público: os sapatos de India batendo apreensivamente no chão, o rolar do ovo na mesa (exaltado pela maravilhosa mixagem de som), o barulho incômodo do compasso do piano, o porão mal iluminado, as lacunas sonoras, a tia sinistra que traz maus presságios. Não só isso, mas o diretor parece sempre observar uma inquietação no ambiente. A câmera não para, ela é nervosa, se afasta e se aproxima dos personagens, fica na mão, treme. A tensão é constante – instaura-se o clima de paranoia. Nesse sentido, Chan-wook Park lembra bastante Hitchcock, com um cinema de sugestões (e sombras) – a maneira como a câmera se movimenta indica a presença de algo aterrorizante; os rostos (extremamente iluminados) com sorrisos artificiais de Charles e Evelyn são claramente fruto duma mentira.

Contudo, o diretor adota uma postura de terror explícito na segunda metade. Já sabemos quem Charles é, o que faz e, ainda assim, não sabemos suas intenções. Os fetiches se concretizam e a tensão sexual presente em cada frame explode e se realiza. Assim, tememos os personagens e suas ações, mas ficamos ansiosos para saber o motivo de seus atos. E, sim, a reviravolta evoca um tom de A Sombra de uma Dúvida, do Hitchcock. Contudo, Segredos de Sangue passa longe dum pastiche, uma vez que busca uma abordagem muito mais típica do diretor sul-coreano do que do mestre inglês. Uma análise rasa dos dois poderia indicá-los como iguais, entretanto. Park retoma o cinema de autor com propriedade. Abraça a ideia da estética pela estética, quase sempre tornando o filme mais bonito visualmente, criando planos elegantes sem que necessitem ser narrativamente orgânicos. Numa tendência cada vez mais preocupante da crítica em analisar Cinema como ciência, um filme como este é bom para mostrar que nem sempre um plano precisa ser pensado apenas para servir à narrativa.

Da Coréia do Sul para os Estados Unidos, Chan-wook Park se mostra um diretor versátil que sabe brincar com gêneros e dirigir um filme, acima de tudo, hollywoodiano. Com uma mise-en-scène absolutamente incrível, essencial para desenvolver as relações no ambiente familiar – a cena da escada é maravilhosa por ilustrar perfeitamente isso – e uma montagem meticulosa, onde o modo como ele intercala três sequências distintas causa maior tensão em cada uma delas, Park narra uma história de perversões, onde a inocência cede lugar à maldade. É um cinema de imagens a serem desconstruídas e de ambientes onde as boas intenções não existem – elas são sufocadas.

Comments

Leave a Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Loading…

Loading…

Comments

comments