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O Dia da Besta (Alex de la Iglesia, 1995)

O profano pelo bem

Por Rafael Lopes

Uma comédia de ação satânica” é como O Dia da Besta é definido. A verdade é que há ali uma salada muito bem temperada de estilos e influencias, que muito bem casadas pelo seu diretor, faz surgir o suspense, a tragédia, o terror, a ação e claro, a comédia. Em se tratando de um filme onde o humor negro impera, a união de vários gêneros pode ser viável e capaz de montar toda uma atmosfera que ao termino do filme, fica difícil imaginar se a obra daria certo se não fosse tão misturado. A partir de um enredo simples, com personagens marcantes e reviravoltas deliciosas, O Dia da Besta não pode ser apenas chamado como comédia, mas como filme que faz jus ao título de filmaço.

Um padre de nome sugestivo, Angel (Alex Ângulo), descobre depois de estudos do livro do apocalipse o dia exato do nascimento do filho do diabo, e como bom servo de Deus, se oferecerá para lutar contra esse acontecimento que marcaria o fim dos tempos. O que se sabe é que o diabo é sacana e fará com que seu filho nasça num 25 de dezembro, bem como Jesus Cristo. Engajado em dar fim a isso, decide largar a fidelidade a Deus para se unir ao demônio, e assim descobrir todas as informações que o levem ao local exato do nascimento do rebento do tinhoso. Sendo assim, decide profanar, pecar e blasfemar afim de que o diabo saiba que ele quer se unir a ele – até porque o diabo é burro e não sabe das reais intenções do padre.

É então que conhece José Maria (Santiago Segura), um cara que curte Heavy Metal satânico, que tem uma loja que vende esse produto, e por isso é o primeiro lugar que Angel procura informações para suas investigações. José Maria se une a Angel (sacou a brincadeira com os nomes?) e partem em busca de respostas. Os dois desenvolvem uma parceria quixotesca, onde Angel decidido a cumprir com seu dever conta com a ajuda do leal e prestativo José Maria ( e suas atitudes de Sancho Pança), decidido inclusive a dar porrada em qualquer um que se ponha no caminho do padre. Até que chegam ao professor Cavan (Armando de Razza), um picareta que apresenta um programa que mexe com o ocultismo na TV e possui ainda materiais ditos sérios sobre o assunto. E é até ele que o ingênuo padre chega, em busca de ajuda para invocar o demônio.

Um pacto é selado, o demônio e seu filho passam a ser perseguidos entre os becos de Madrid e casas noturnas que tocam heavy metal, e o diretor Alex de La Iglesia usa todas essas improváveis informações para compor um filme provocantes e inteligente. O diretor não apenas mantém foco em seu enredo peculiar, mas o utiliza como forma de levantar críticas sociais e ironizar muitos costumes da sociedade. Em nenhum momento ele se oferece para tratar de religião e tampouco fazer graça com isso em tom de chacota ou em tom pejorativo. O que ele faz é exprimir de seus personagens um pouco do que se tem na realidade, um pouco do que as pessoas se tornaram na verdade ao longo desses tantos anos que existimos. Por exemplo, o padre que parece ter sobrevivido à Idade Média, pois se acha tão inteligente, mas é na verdade um atrasado mentalmente. Ou José Maria, um cara preguiçoso e não tão inteligente assim, que só existe muito mais pelo seu ostracismo do que por qualquer outra coisa. Com o professor Cavan, vem aquela coisa do fato de se aproveitar da boa vontade das pessoas, uma vez que com seu jeito charlatão, consegue piorar a qualidade da programação de TV aberta com seu sensacionalismo, hipocrisia e mentiras.

O mais irônico é esses 3 reis magos às avessas, procurando o filho recém nascido do demônio – guiados até por uma estrela cadente – para salvarem o mundo. O diretor consegue não apenas desenvolve-los muito bem, como a todos os outros personagens, cada qual com sua importância. Outra questão interessante a ser levantada é o que fica ao final do filme. Ao longo bate uma dúvida que o diretor realmente quer que fique: será que vale mesmo a pena salvar o mundo? O que se tem é um grupo de pessoas intitulados “Limpa Madrid”, que saem jogando fogo em mendigos; temos também pessoas burras, desconfiadas, preconceituosas e sempre um perigo em cada esquina. Seria um sinal do fim do mundo? O desenvolvimento dessa ideia paralela ao filme é o que melhor marca, e é ainda melhor explanada na irônica e perfeita cena final.

O que temos é um filme que conseguiu captar em estilos diferentes e influencias diversas, que vão da bíblia à Pedro Almodóvar, um enredo profano e igualmente perfeito, onde dosa com maestria a comédia e o terror com o cuidado para não cair em polêmicas bobas e conseguir desenvolver um filme mais rico do que se pensa. É delicioso do início ao fim, e se assistido sem o preconceito usual de muita gente cega pela religião, é melhor ainda. Um filmaço.

Ficou curioso pra assistir? Se não quiser baixar, clique AQUI e assista legendado no Youtube.

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